08 de julho de 2026
Geral

78% das concepções terminam em aborto

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

O número impressiona. Um estudo feito na Inglaterra constatou que 78% de todas as concepções resultam em aborto espontâneo. Na maior parte dos casos, a gravidez é interrompida logo no primeiro mês, ou seja, antes da mulher saber que está grávida.

De acordo com relatos da literatura médica, chegou-se a esse percentual após análises das variações na concentração do hormônio gonadotrofina coriônica, presente desde o início na gravidez. Os pesquisadores acompanharam um grupo de mulheres com idades entre 20 e 29 anos e notaram que muitas, de uma hora para outra, passaram a exibir um aumento na concentração desse hormônio no organismo, o que indicava que haviam engravidado, mas alguns dias depois o nível caía. Era um indicativo de aborto.

“Isso mostra que muitas mulheres perdem seus bebês em estágio extremamente precoce, antes de saberem que estão, de fato, grávidas. E isso ocorre, nesses casos, sem sintomas de abortamento como sangramento e cólicas”, diz a geneticista Elaine Rodini, coordenadora do laboratório de genética da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Segundo ela, as causas para o aborto podem ser genéticas e ambientais. Embora muitos embriões possam morrer mesmo sendo normais. Isso porque existem características maternas relacionadas à incompatibilidade imunológica com o marido, que pode levar ao abortamento espontâneo.

De acordo com Elaine, embora o estudo seja de conhecimento de quase toda classe médica que lida com o problema, poucos casais sabem disso. Segundo ela, é mais uma prova de que o abortamento espontâneo é uma ocorrência mais comum do que se imagina.

Depois que a gravidez é constatada por exames clínicos e laboratoriais, e isso ocorre no segundo ou terceiro mês de gestação quando a mulher nota um atraso em seu ciclo menstrual, o índice de abortamento cai para cerca de 15% a 20%. Estudos e pesquisas feitos na própria Unesp de Bauru e pela geneticista mostram que entre as causas mais freqüentes para o aborto nessa fase estão as alterações cromossômicas do feto, observadas em cerca de 50% a 60% dos casos.

Cada espécie existente, seja ela animal ou vegetal, possui um conteúdo cromossômico que é responsável pelas características próprias do organismo. Esses conteúdos chamam-se genomas. Em condições normais, as células humanas contêm 46 cromossomos, sendo 22 pares de cromossomos autossomais e um par de cromossomos sexuais (XX em mulheres e XY em homens).

Às vezes, podem ocorrer acidentes ambientais ou biológicos, que ocasionam irregularidades na divisão celular, atingindo os cromossomos e causando alterações no genoma do indivíduo. Alterações que afetam a estrutura molecular do DNA e podem provocar a má formação do feto. A Síndrome de Down ou trissomia do 21 é o distúrbio cromossômico mais comum.

Trata-se de uma doença genética, causada por um acidente que pode ocorrer no óvulo, no espermatozóide ou após a união dos dois (ovo), provocando uma alteração cromossômica. Ocorre quando crianças nascem dotadas de três cromossomos 21, e não dois, como é normal.

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Idade ideal para engravidar é dos 20 aos 30 anos, afirma geneticista

O período ideal para a mulher engravidar é dos 20 aos 30 anos. Depois disso, o risco de aborto aumenta. A informação é do geneticista Esiquiel de Miranda. Ele afirma que até duas interrupções de gravidez podem ser consideradas normais. Acima disso, é necessário descobrir o que está levando a essa repetição.

Ele comenta que a impressão que dá é que os casos de aborto espontâneo são mais comuns agora do que antigamente, mas essa não é a realidade. A diferença, segundo o geneticista, é que no passado as famílias tinham muito mais filhos, chegando a uma dezena em muitos casos. Então, os abortos não influenciavam tanto na composição da família.

Atualmente, a história é outra. Os casais estão tendo poucos filhos, no máximo três. Quando perdem algum, a frustração parece ser maior e o impacto na prole é mais significativo, sustenta Esiquiel, que trabalha há 22 anos com os aspectos genéticos da perda reprodutiva.

Além de ter menos filhos, as mulheres estão engravidando mais tarde. Elas estão adiando o projeto de ser mãe para depois da estabilidade profissional e financeira, ou seja, primeiro vem a faculdade, o emprego, a casa própria, o carro e outras prioridades. No entanto, estudos comprovam que com o passar dos anos, aumenta o risco de um aborto espontâneo, principalmente depois que a mulher completa 30 anos. Talvez, por isso, tem se tornado mais corriqueiro ouvir histórias a respeito desse problema.

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‘Eu sabia que iríamos conseguir’

A psicóloga Maura Petrucelli Felipe e o marido André Luiz Felipe nunca passaram por experiências tão intensas como as que viveram no ano passado. Em três meses, foram do céu ao inferno e retornaram ao paraíso. A notícia de que “estavam grávidos” foi motivo de muita comemoração. A família toda festejou, os amigos também.

Quando Maura entrou na sétima semana de gravidez, foi fazer um exame de ultra-sonografia na esperança de ver o coração do embrião em funcionamento. Voltou para casa decepcionada. Parecia que o embrião não estava se desenvolvendo. Dois dias depois, notou um sangramento. Um exame constatou descolamento do saco gestacional, onde se abriga o embrião. Passados mais dois dias, Maura começou a sentir cólicas. O aborto estava em andamento, não havia mais nada a se fazer.

O riso deu lugar ao choro. A psicóloga não esquece o quanto esse fato mexeu com o casal. “É um momento em que os sonhos vão embora”, relata. “Mas três dias depois, já estávamos tocando a vida normalmente. Eu sabia que iríamos conseguir de novo”, lembra.

Dois meses mais tarde, essa certeza se confirmaria. Novamente, Maura estava grávida. Outra vez, a família em festa. No dia 30 de abril, coincidentemente no aniversário de casamento de Maura e André, eles viram o coração do embrião batendo. “Foi maravilhoso”, recorda.

Até completar os três meses de gravidez, quando o risco de abortamento é alto, ela conta que toda vez que fazia um ultra-som, o coração disparava. O medo de perder o filho novamente deixava-a apreensiva. “Felizmente, foram nove meses de uma gravidez perfeita. Trabalhei até dois dias antes do parto”, comenta. Elisa nasceu com quase quatro quilos e o casal já planeja o segundo filho.

Desistir, nunca

Quando entrou no terceiro mês de gravidez, a professora Magali (que pediu para não ter o sobrenome divulgado), 43 anos, não imaginava que teria de adiar seu sonho de ser mãe. Tudo corria bem, até que um dia notou um pequeno sangramento. Não havia dor.

Ela procurou o médico e foi orientada a ficar em repouso absoluto. Mesmo atendendo a recomendação, o sangramento não cessou, ao contrário, aumentou. Como era sábado, ela procurou o pronto-atendimento. Foi atendida pelo médico plantonista, que entrou em contato com o médico dela, que orientou que ela voltasse para casa e continuasse o repouso.

No domingo, o sangramento ficou mais forte. Ela voltou ao hospital. Desta vez, passou por um exame de ultra-som, que constatou que o feto estava morto. Magali foi orientada a voltar para casa, pegar algumas coisas e retornar ao hospital para a curetagem. Foi o que ela fez. Quando se preparava para voltar ao hospital para a limpeza do útero, Magali teve vontade de ir ao banheiro. Foi quando “desceu” a placenta com o embrião dentro. A curetagem não foi necessária.

Depois disso, ela continua perseguindo o sonho de ser mãe. “De vez em quando, bate o desânimo, mas continuo lutando”, afirma.