10 de julho de 2026
Articulistas

Literatura e rejeição

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Engana-se quem acha que a carreira de grandes artistas é feita só de glórias e aplausos. É constituída de mil tropeços, fracassos e rejeições. Só que esses percalços, por terem sido superados, praticamente desaparecem ante o brilho que a obra ganha na posteridade. Tentei consolar o amigo escritor que se corresponde comigo por e-mail. Ele lamenta que tem seus livros na gaveta e não encontra editor. Quando a editora se dá ao trabalho de devolver os originais vêm acompanhados da clássica desculpa: “sua obra é boa, mas não se enquadra nos projetos editoriais desta casa”.

Lembro a ele que James Joyce, o grande reformulador do romance no século 20, reconhecia, numa carta de 1916, que seu livro de contos “Retrato do artista quando jovem” havia sido recusado por vários editores. Diziam sempre: “bom trabalho, mas não se paga”. Quem conta é o crítico literário e poeta Affonso Romano de Sant’anna. Se servir de consolo aos autores inéditos como o meu amigo, o crítico emenda com os percalços de Francis Scott Fitzgerald, um dos melhores contistas modernos da literatura norte-americana e sua coleção de recusas editoriais. Sua biografia registra que, em 1920, tinha dependurados no seu quarto 120 bilhetes de recusas para publicação dos seus contos. Um deles deve ter sido “O estranho caso de Benjamin Button”, ou “O grande Gatsby”.

Conheço pessoas de talento que se propõem a pagar a primeira edição do próprio bolso, para escapar da frustração de escrever para ele mesmo. De repente a obra chama a atenção e as portas acabam se abrindo - raciocinam. Mesmo com esta disposição de sacrificar o bolso corre-se o risco da recusa. O caso mais clamoroso é o de Marcel Proust. “Em busca do tempo perdido” foi recusado não por um, mas por vários editores. O autor estava disposto a pagar a edição e até mesmo financiar a publicidade. André Gide, mesmo sendo homossexual não se deixou seduzir por esse aspecto da obra. Apenas folheou os originais e considerou falta de escrúpulos Proust dizer que pagaria a edição se fosse preciso. Depois do sucesso de “Du côté de chez Swan”, lançado por um modesto editor que percebeu o estilo inovador de Proust, Gide desculpou-se em uma carta histórica na qual confessa o grave erro, a vergonha “e um dos remorsos mais cruéis da minha vida”.

Dou pareceres em obras de Comunicação para editoras universitárias, com o maior medo de cometer uma gafe e virar gozação biográfica. A fronteira entre o gênio e o imbecil tem uma estreita zona de penumbra. “O meio é a mensagem”, do emblemático Marshall McLuhan, o canadense que re-inaugurou a fase moderna dos estudos de comunicação nos anos 60, também foi recusada, sob alegação de que “é um livro de um pequeno louco”.

Muitos escritores que se tornaram famosos foram rejeitados, no início, como roteiristas de filmes em Hollywood, como Ernest Hemingway e William Faulkner. Ambos acabaram laureados com o prêmio Nobel de Literatura, no auge da carreira. Na indústria cinematográfica ainda tiveram que passar pela humilhação de ver seus diálogos modificados pelo “touch man”, o sujeito contratado para inserir certos clichês que o público adora, piadinhas e frases de efeito. Recentemente saiu o livro-entrevista “Conversas com Woody Allen”, onde o cineasta confessa seu desejo de fazer filmes sérios, “... aquelas coisas dramáticas que foram feitas por Bergman e Antonioni”. Estranha que seus projetos sérios façam os produtores rir. Lembra o Pestana, personagem de Machado de Assis que fazia sucesso compondo polcas. Mas detestava isso. Sonhava fazer música clássica. Passava noites buscando inspiração, até que finalmente pensa ter alcançado a erudição. Para seu desespero a composição é recebida como mais uma polca, e logo se transforma num grande sucesso. Parece o Lula quando faz um paralelo da crise mundial com o Corinthians, que tem fase ruim, mas logo passa. Aí surge Barack Obama e afirma que Lula é o cara. É o suficiente para a turma do badalo dizer que o nosso presidente conquistou o mundo como estadista. “O cara”, todo mundo sabe, é o sujeito que tem o poder de dizer “quem” é o cara. E fazer disso manchete de jornal. Sentar-se ao lado da Rainha Elizabeth II não é sinal de importância. Apenas uma atitude politicamente correta dos organizadores de passarem a impressão que, entre civilizados, tupiniquim também tem lugar. O governante que consegue manter o humor no G20, enquanto à sua volta outros 19 estão preocupados, provavelmente não está entendendo a gravidade da situação. Feliz Páscoa!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC