02 de maio de 2026
Articulistas

Criacionismo e evolucionismo

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 4 min

Desde que Charles Darwin elaborou a “teoria da seleção natural”, inaugurou-se um período de forte e progressivo debate entre evolucionistas e criacionistas, que, no momento atual, parece estar mais em evidência, sobretudo por ocasião das comemorações referentes aos 200 anos de seu nascimento. Minha intenção é apresentar uma breve reflexão acerca desta complexa temática, considerando que nos últimos dias tenho sido procurado para orientar e esclarecer pessoas e alunos sobre o que a Igreja pensa a respeito deste tema. O título deste artigo já sinaliza minha posição, ou seja, a conjunção aditiva e revela que é plausível estabelecer uma relação entre o criacionismo e evolucionismo, evitando, assim, a contraposição, que, além de gerar conflitos, não é producente. A questão de fundo que me preocupa é a transformação de uma teoria científica em ideologia, isto é, alguns se aproveitam do evolucionismo para negar enfaticamente a existência de Deus e abalar a fé das pessoas. É claro que a fé deve ser madura e vivenciada não apenas por tradição, mas, sobretudo, por convicção e resposta livre de amor ao amor de Deus recebido. Outro perigo é se apoiar de modo fundamentalista no criacionismo menosprezando ou negando uma teoria científica. Penso que estamos na fase de aproximação e não de combate ou contraposição, como veremos a seguir. Cabe recordar que a Igreja respeita a “autonomia legítima das realidades terrenas” (GS, n.36). Isso implica a relação entre fé e ciência.

A recente e oportuna publicação do teólogo Hans Küng - O início de todas as coisas - acerca desta problemática oferece ao debate uma preciosa contribuição ao propor um modelo de complementaridade e de interação crítico-construtivo entre ciências naturais e religião em oposição ao modelo de desencontro e contraposição. Para tanto, propõe o modelo de integração harmônica (cf. H. Küng), buscando-se a interpretação da realidade inteira, em todas as suas dimensões. “Isto significa que a teoria evolucionista e a criação do homem não se contradizem, mas não podem nem mesmo ser harmonizadas. A nossa interpretação da Bíblia deve dar relevância àquilo que é irrenunciável para a fé e para a vida. As ciências naturais não devem “provar” a existência ou inutilidade de Deus. Estas devem, ao contrário, levar adiante, enquanto possível, a capacidade de explicar o nosso universo do ponto de vista da física e, ao mesmo tempo, deixar espaço àquilo que por princípio não é fisicamente explicável. Disto fala a Bíblia” (ib.). Isso implica diálogo construtivo e enriquecimento recíproco entre ciência e religião, pautado pelo respeito às esferas específicas, evitando passagens ilegítimas, bem como fundamentalismos e absolutizações. “Não há oposição entre fé na Criação e a evidência das ciências empíricas” (Bento XVI). A ciência não exclui Deus e a fé não exclui a ciência: “A fé ama saber” (Santo Anselmo). Quanto mais compreendemos mais cremos na existência de um princípio criador, que denominamos Deus.

O renomado biólogo americano Francis Collins, em seu livro “A linguagem de Deus”, apresenta o paradigma da evolução teísta como proposta para harmonizar a relação ciência e fé. Segundo Collins, “essa perspectiva permite ao cientista que acredita em Deus realizar-se intelectualmente e sentir-se espiritualmente vivo, tanto ao idolatrar o Criador quanto ao utilizar os instrumentos da ciência para descobrir alguns dos admiráveis mistérios da Sua criação”. Sabe-se que a Criação não está acabada e não é estática. O ser humano continua a obra da criação, é co-criador criado, desvenda os segredos e mistérios da criação e busca aperfeiçoá-la. O homem é colaborador de Deus e, ao mesmo tempo, seu intérprete (cf. GS, n.50). Portanto, estamos ainda no oitavo dia da criação, ou seja, no “fim do início e não no início do fim” (Dom Hélder) como pensam alguns pessimistas. É possível sentir ainda o frescor criador.

No homem criado à imagem de Deus, está a marca e o reflexo do Criador, cuja presença é simbolicamente representada pelo conceito bíblico imagem de Deus. Nesse sentido, matar, deixar morrer ou não evitar a morte precoce é um ato destrutivo contra a vítima e contra quem a criou. Aqui, a razão de sua particular gravidade, pois na imagem de Deus está a fundamentação teológica da ética do respeito à vida. É um ato de responsabilidade humana e cristã, cooperar com Deus na obra da criação, a partir dos instrumentos e talentos que possuímos, integrando fé e ciência: cremos para compreender e compreendemos para crer.

O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é padre, pároco da paróquia de São Cristóvão e professor de teologia moral na Faculdade João Paulo II, em Marília