08 de julho de 2026
Turismo

Marechal Deodoro

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Dias Gomes deve estar feliz ao saber que o diretor Guel Arraes escolheu uma cidade bucólica, banhada por uma imensa lagoa, com muito verde, casas antigas com ou sem “eira e beira” e um povo mais que acolhedor para ser o cenário do filme baseado em sua obra-prima: “O Bem-Amado”. Lugar repleto de casarios coloridos, uma infinidade de igrejinhas centenárias, a cadeia onde Zeca Diabo despontou para a fama, coqueirais a perder de vista e uma das praias mais paradisíacas do Brasil: a do Francês.

Cenário perfeito para relembrar as estripulias do prefeito Odorico Paraguaçu, que a todo custo queria inaugurar o primeiro cemitério da cidade. Mesmo que tivesse que contratar um pistoleiro para “encontrar” a vítima para seu plano macabro. O filme de Arraes, que pega carona no sucesso da obra de Dias Gomes, da novela e da minissérie da Globo exibida nos anos 70, deve estrear no segundo semestre. As irmãs Cajazeiras, Zeca Diabo, Odorico Paraguaçu e Dirceu Borboleta prometem levar milhares às salas de exibição. Durante dois meses, os atores desse “remake” - entre eles Marco Nanini, Drica Moraes e Andrea Beltrão - encantaram e se encantaram com a cidadezinha alagoana onde a claquete abriu e fechou muitas vezes.

Caminhando, caminhando...

Mais um motivo para, na próxima visita a Alagoas, conhecer mais detalhes da cidade que deu ao Brasil o primeiro presidente e é a segunda em arrecadação do Estado.

Deixe o carro estacionado na pracinha central e caminhe pela ruas de paralelepípedos, se encante com as fachadas multicoloridas de seu casario, reze para Padre Cícero, conheça seu Museu de Arte Sacra, a antiga residência da família Fonseca e se deixe levar a um passeio pela imensa Lagoa Manguaba, que banha toda a cidade. Perfeita para se ver o pôr-do-sol tomando uma cerveja gelada acompanhada de uma porção de “agulhinha”, o peixinho típico de lá.

Da Lagoa Manguaba vem o sustento de várias famílias de pescadores. A vila de pescadores mais famosa é a de Massagueira, que dispõe de uma boa estrutura de bares e restaurantes com pratos típicos.

____________________

Centro histórico

Há quatro anos, o centro histórico da cidade foi tombado pelo IPHAN e vários prédios começaram a ser restaurados, no estilo barroco colonial. Algumas casas são cobertas com telhado, eira e beira. Sinal de que o dono era da mais alta classe social. Quem tinha menor poder aquisitivo morava em casas com telhado e beira. Para os mais pobres, apenas telhado. Daí a expressão: “Este sujeito não tem eira nem beira”. O prédio onde funciona a prefeitura, de 1818, já sediou o Palácio Provincial.

A cidade tem dez igrejas. Isso deve-se ao fato de que no século 17 a cidade era a mais habitada da região. A igreja mais antiga é a do Nosso Senhor do Bonfim. Quando a cidade foi fundada, em 1596, ela já existia onde hoje é o bairro de Taperaguá. O chamado Adro do Convento começou a ser construído pelos padres franciscanos em 1660 e terminou em 1793. Ali estão a 3.ª Ordem de São Francisco dos Pretos, construída em 1722, e a Igreja Conventual de Santa Maria Madalena. Em 1984, o conjunto foi transformado em Museu de Arte Sacra e está sendo reformado.

Em 1633, os holandeses invadiram a cidade, torturaram os moradores, queimaram 100 casas e a igreja da padroeira Nossa Senhora da Conceição. Alguns anos mais tarde, os moradores reconstruíram a igreja onde hoje é a Matriz.

O visitante também pode conhecer a casa onde viveu o primeiro presidente do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca, que nasceu em 23 de agosto de 1892 e morreu vítima de asma, aos 65 anos.

A mãe de Deodoro, Rosa Maria Paulina da Fonseca, era casada com o Tenente Coronel do Exército Manoel Mendes da Fonseca e teve 10 filhos, sendo oito homens e duas mulheres. Três dos filhos, Alferes Afonso Aurélio, Hipólito Mendes e Eduardo Emiliano, morreram na guerra que uniu o Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, liderado por Francisco Solano López.

Quando Rosa recebeu a notícia de que o terceiro filho havia morrido, também soube dos rumores de que o Brasil negociava uma trégua com o Paraguai. Revoltada, ela teria dito a seguinte frase: “Prefiro não ver mais os meus filhos. Que fiquem todos sepultados no Paraguai, no campo de batalha, do que vê-los enlameados com um acordo de paz vergonhoso”.

* Colaborou Carlos Roberts