09 de julho de 2026
Articulistas

Como não ficar indignado

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Para não ficar indignado é preciso recolher-se em isolamento completo, virar um eremita, se é que isso ainda é possível. A informação passou a ser uma necessidade básica, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais invasiva. É como se estivéssemos vigiados permanentemente pelo Big Brother de George Orwell. Não dá para ficar sem ela, por necessidade, e não dá para fugir dela, porque a ela estamos expostos o tempo todo. E vem daí que ora ela nos ajuda, orientando, esclarecendo, distraindo, alegrando, aumentando os conhecimentos, e ora nos prejudica, entristecendo, amedrontando, causando revolta e indignação.

Abrimos o jornal ou a revista, ligamos a televisão ou a Internet e nos informamos sobre novas descobertas científicas, que podem levar à cura de câncer, esclerose múltipla, Parkinson, e ficamos esperançosos. Divertimo-nos com novelas, programas humorísticos e musicais. Aprendemos com reportagens geográficas, históricas, econômicas, agrárias e com entrevistas com pessoas ilustres pelo saber. Esse é o lado bom, mas não podemos escapar dos assaltos, assassinatos, seqüestros, balas perdidas, acidentes de trânsito, guerras e catástrofes. Mas o pior de tudo são as informações que nos causam indignação. São as tragédias que poderiam ser evitadas ou amenizadas se fossem tomadas medidas efetivas. Medidas que deixam de ser tomadas por incúria dos órgãos públicos responsáveis por elas ou pela alegação de falta de recursos, enquanto fazem uma verdadeira farra com o dinheiro público.

Quem não fica indignado quando os jornais e a TV mostram nossos irmãos nordestinos bebendo lama e o gado cadavérico, morto no pasto ressequido, porque não há caminhões-pipas para levar-lhes água, mas há verba para propaganda (governo Lula gastou mais de um bilhão de reais em propaganda em 2008). Por que o governo precisa fazer propaganda? É uma forma descarada de fazer propaganda política. Os R$ 45 milhões gastos até este mês para divulgação do PAC e do Minha Casa, Minha Vida são propaganda da candidatura da Vilma. Os milhões gastos para divulgação do rodoanel não é campanha do Serra para presidente? E a propaganda da Sabesp, para que serve, se não é para esse mesmo fim? Enquanto hospitais e prontos -socorros deixam os doentes no chão dos corredores, por falta de recursos; pobres ficam sem remédio de distribuição gratuita e crianças ficam sem merenda escolar; prédios escolares são interditados porque ameaçam cair sobre as crianças; escolas estão sem professores, postos de saúde sem médicos, delegacias sem delegado, por falta de recurso, o governo gasta os tubos com propaganda e senadores fretam jatinho para transporte pessoal. Médicos não se inscrevem em concurso porque o salário é pequeno, mas a sogra do assessor de um senador é funcionária fantasma há seis anos, recebendo salário de R$ 4.900,00. É para ficar alegre ou indignado saber que em 2008 o Senado gastou R$ 8,6 milhões só com telefone celular? E que em março a conta mensal do celular cedido a um senador ficou em R$ 14.000,00, porque ele emprestou para a filha levá-lo em viagem ao México? E tudo isso são pequenas amostras daquilo que diariamente somos informados.

O único parlamentar que demonstrou estar preocupado com o destino da Nação foi exatamente o extravagante Clodovil, que propôs a redução do número de parlamentares. Talvez uma das causas de sua morte tenha sido verificar que a Câmara está estudando exatamente o contrário - aumentar em 79 o número de deputados federais, o que poderá provocar o aumento do número de deputados estaduais e de vereadores municipais, também em andamento. Como fica caro manter a democracia com governo representativo. Agora, para demonstrar seu zelo, o Senado endureceu as regras, mas para dificultar o acesso da imprensa e não para acabar com os escândalos. Não é à toa que continuam existindo adeptos tanto do comunismo quanto da ditadura.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru