09 de julho de 2026
Geral

Registros sobre pioneiro são escassos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Poucos registros restaram a respeito da vida do pioneiro João Batista de Carvalho. “Eu me lembro de ter visto uma única foto em que ele aparecia bem de longe, montado em um carro de boi. Só que não sei onde foi parar aquele retrato”, afirma o pesquisador Irineu Bastos.

Dos filhos de Batista de Carvalho, talvez o que mais se destacou na cidade tenha sido Olímpio Batista de Carvalho. Natural de Lençóis Paulista, mudou-se para Bauru juntamente com os pais, em 1889. Já adulto, trabalhou como funcionário da prefeitura. Por volta dos 23 anos, passou a se interessar pela leitura da Bíblia, fato que desgostou profundamente sua mãe, Maria Justina.

“Quando meu pai ganhou sua primeira Bíblia, minha avó tomou e jogou no fogo”, garante Enira Batista de Carvalho Fava, 87 anos, filha de Olímpio. Naquela época, eram poucos os católicos que tinham o costume de ler as Escrituras - inclusive, a Igreja fazia questão de que seus fiéis ficassem afastados dos textos sagrados, orientação esta que só foi deixada de lado nos anos 1960, depois do Concílio Vaticano II.

Temendo que o filho “mudasse” de religião, Maria Justina decidiu proibi-lo de ler as Escrituras. “Só que meu pai estava resolvido a se tornar pastor. Ele deixava uma Bíblia escondida no quarto para ler enquanto todos estavam dormindo”, garante Enira, que atualmente mora em Lins.

A persistência de rapaz acabou falando mais alto que as resistências da mãe, tanto que ela própria acabou se tornando evangélica, pouco tempo antes de morrer. Nos anos 20, Olímpio tornou-se membro da Igreja Presbiteriana Independente de Bauru. Mais tarde, passaria a atuar como pastor.

Com a esposa, Maria, teve nove filhos - um dado curioso é que todos tinham nomes iniciados com a letra E: Efraim, Eunice, Ernestina, Erintos, Eulina, Evandino, Enira, Eurico e Edi. Apenas Enira e Eurico continuam vivos.

“Meu nome foi uma homenagem a uma farmacêutica chamada Onira, que vivia em Bauru. Meu pai acabou mudando para Enira, por que queria que começasse com E”, conta a filha.

Terra natal

Olímpio Batista de Carvalho atuou como pastor até se aposentar, nos anos 1950. “Era uma pessoa modesta, um verdadeiro homem de Deus. Nunca quis saber de honrarias ou coisas do gênero. Eu e minhas irmãs bem que insistíamos para que ele fizesse algo para resgatar a memória de nossa família, mas ele dizia que isso não faria diferença nenhuma em nossas vidas. Interessante é que, depois da morte dele, acabei perdendo o interesse nessa história de homenagens”, afirma a professora aposentada Enira Batista de Carvalho Fava, neta de João Batista de Carvalho.

Quando era adolescente e morava em Bauru, Enira chegou a escrever um poema em homenagem ao avô. Ela costumava visitar a terra natal quase que anualmente. “Para mim, Bauru continua sendo a minha cidade”, garante.

Inclusive, ela fez questão de manter no talão de cheques o nome de solteira. “Quando vou ao Calçadão de Bauru, muitas pessoas vêm me perguntar se tenho algum parentesco com o patrono da rua”, afirma.

Enira conta que torceu por Rodrigo Agostinho (PMDB), nas últimas eleições municipais. “Conheci a família dele. Olhando para o rosto dele, jovem daquele jeito, achei que poderia fazer muito por Bauru”, diz.

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‘Ao vovô Batista de Carvalho’

Vovô, se tu voltasses novamente

Se tu voltasses dessa campa fria...

Que ventura teria a nossa gente

Que ditosa noss’alma então seria

Se tu soubesses como está mudado,

Este recanto, este feliz rincão

A terra que teu sonho traz guardado

A terra que possui teu coração

Se pudesses rever aquela herdade,

Onde floriu outrora a palmeira,

Onde sonhaste ver uma cidade

Traçando das ruas a primeira

Volta, vovô, à terra que deixaste

Teu lindo sonho é realizado aqui

Bauru! Suprema glória que iniciaste

Bauru! Suprema terra onde nasci.

Erira Batista de Carvalho Fava 14 de março de 1941(40 anos da morte de João Batista de Carvalho)

* Enira não chegou a conhecer o avô. Quando ela nasceu, o patrono da rua Batista de Carvalho já havia morrido.