08 de julho de 2026
Articulistas

A farra das passagens

Isabel Cristina Miziara
| Tempo de leitura: 4 min

Numa rápida pesquisa sobre a significação e o objeto de estudo da ética, deparamo-nos com infindáveis fontes de informação, algumas simples e claras, outras elaboradas e complexas. Não importa qual delas tenhamos capacidade de compreender, podemos chegar a conclusões bastante simples: o termo vem do grego “ethos”, que significa costumes e, grosso modo, seu estudo gira em torno da moral, das normas de comportamento, dos costumes que norteiam uma sociedade e que são típicos de uma cultura, sempre visando a realização do bem.

Policarpo Quaresma, funcionário público e herói nacionalista caracterizado por Lima Barreto no início do século passado, tem um triste fim por acreditar, incondicionalmente, na grandeza do Brasil e dos brasileiros, idéia que não abandonou, mesmo quando era motivo de chacota para alguns de seus confrades de trabalho. E o que tem a ver a farra das passagens com estes elementos significativos da cultura brasileira?

O que se tem visto ultimamente em nosso País é entristecedor. Aqueles que deveriam ser os representantes e defensores da ética são os que mais a ignoram. Aqueles que deveriam inspirar-nos no afã nacionalista, dão-nos provas incontestes de que ignoram o que seja amor à Pátria. Numa perpetuação do patrimonialismo histórico característico das instituições públicas, observa-se o uso da coisa pública como algo que lhes pertencesse e a apropriação do erário de forma abusiva, como se não devessem quaisquer explicações.

Tão noticiada foi a “farra das passagens” - como se esse fosse o único tipo de farra a qual se dedicam os senhores congressistas - que o senhor Michel Temer, ilustre presidente da Câmara dos Deputados, veio a público manifestar sua indignação e, ao mesmo tempo, defender seus colegas de profissão, alegando que não devemos julgar toda uma instituição pela ação indevida de alguns poucos. No momento seguinte, num rompante de moralização, anuncia que é chegado o fim de tal situação, que os congressistas terão que respeitar as normativas dispostas a partir da presente data (do anúncio das medidas) e, ato contínuo, num átimo de benevolência, anistia seus companheiros de trabalho desobrigando-os de devolver o dinheiro público gasto com as passagens aéreas indevidas, coisa que seria absolutamente normal em outras democracias.

Ora, enquanto cidadã, pergunto-me: se eu tivesse feito uso indevido do dinheiro do meu empregador, seria ele tão benevolente para comigo? Receberia eu, reles mortal que sou, a isenção da dívida? Mais ainda, indago se alguém perguntou à população, empregadora de todos os políticos da Nação, se concordava com o benefício concedido. Será que eles (deputados) se deram ao trabalho de pensar em quantos problemas sociais sérios que assolam o País, poderiam ser solucionados com esta dinheirama pública gasta em viagens de lazer?

Mesmo com tantas dúvidas a torturar-me a mente, fico razoavelmente feliz e penso: calma, paciência, isso vai melhorar! Parece que a moralização bateu às portas do Senado e do Congresso! Doce ilusão! Logo em seguida vem o anúncio bombástico: o presidente da Câmara dos Deputados recuou em seus próprios passos diante do furor de seus colegas de trabalho que muito se sentiram lesados com as tais resoluções. Indignaram-se diante do anúncio de que as passagens pagas pelo Congresso, ou melhor dizendo, pagas por nós contribuintes, não poderiam ser utilizadas por seus familiares! Como podem eles trabalhar em Brasília e verem tolhidos os direitos de cônjuges e filhos de se locomoverem até lá?!

Sabemos que nem todos os políticos compartilham ou apóiam comportamentos tão desrespeitosos para com a população brasileira. Em toda e qualquer instituição, há os bons, os não tão bons e os nada bons. Entretanto, o que temos observado, infelizmente, é uma quantidade infinda de escândalos “insolúveis” e esquecidos em gabinetes, em CPIs intermináveis e que terminam, quase sempre, com a impunidade dos responsáveis.

Uma vez mais ficamos aparvalhados! Uma vez mais temos a obrigação de demonstrar indignação diante dos fatos! Não podemos cair no ostracismo que não remete a lugar algum. O que estaria pensando acerca de tanta desfaçatez o nacionalista ultracorreto Policarpo Quaresma, já naquela época tido como um sonhador por querer aprimorar as instituições públicas? Que sentimentos desenvolveria por seus legítimos representantes? No período de seu “nascimento”, a República engatinhava e a democracia era sonho distante. Que triste caminho seguiram?

E quanto à senhora ética? A mãe de todas as virtudes e de todos os valores que regem a vida humana deve estar de luto! Seus filhos diletos, o respeito, a honestidade, a solidariedade, a fraternidade, devem estar consternados com o estado de abandono no qual se encontram. Que tempos tristes e caóticos estes que vivemos! Mas vivamos como o major Quaresma, cultivando a ética, regando nossos sonhos, tomando o cuidado de não terminarmos como ele.

A autora, Isabel Cristina Miziara, é professora da Faculdade Anhanguera de Bauru