09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Um poeta do nosso tempo


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O maior livro de poesia que já existiu é a Bíblia, a palavra de Deus revelada aos homens, que a escreveram cada um com o seu próprio estilo, incluindo aí o modo de usar as palavras e a visão do mundo, que é influenciada pela visão do mundo da sua época. O maior desses poetas foi certamente Isaías, pelo seu estilo brilhante, imagens originais, ao mesmo tempo com força, concisão e harmonia. Foi um estilo tão singular que eu digo, brincando, que Isaías viveu uns 400 anos. Na realidade, ele recebeu a vocação profética em 740 e teria exercido o seu múnus de profeta até lá por 700. Mas o seu estilo era tão impressionante que os seus discípulos continuaram o seu trabalho até o séc. V. Assim, no Livro de Isaías os primeiros 39 capítulos teriam sido escritos por ele, e os outros 27 são de muitos anos depois de sua morte, uma parte durante o exílio e outra após.

Todo mundo fica impressionado com o Apocalipse, de São João, mesmo quem nunca o leu. A maioria não o leu mesmo, assustada com a complexidade da obra – que São João não criou do nada. Além da inspiração do Espírito Santo, há várias passagens apocalípticas na Bíblia que lhe foram modelo de linguagem, de imagens grandiosas, que subvertem a realidade. A principal dessas passagens é o Livro de Isaías, em especial os capítulos 24 a 27, mas toda a obra é uma preparação para esses capítulos ou uma continuação, amenizando-se o tom da linguagem. Vamos lembrar que Apocalipse significa em grego Revelação, e não fim dos tempos ou escatologia, mas, como também trata disso, é com esse sentido que empregamos a palavra.

Isaías anunciava a ruína de Israel e Judá como castigo da imoralidade, a que a prosperidade tinha levado o povo e sobretudo os governantes. Condenava as alianças políticas com a Assíria ou o Egito, que levavam à infidelidade a Deus, e tiveram como consequência a queda do Reino do Norte, Judá, e por fim ao exílio de Israel na Babilônia. O Apocalipse de São João pode referir-se à queda de Jerusalém, no ano 70, com a destruição do templo e a perda total do território – daquela época até 1948, com a criação do Estado de Israel, quase dois mil anos depois, os judeus vagavam errantes pelo mundo.

O tema da Campanha da Fraternidade 2009 é “Fraternidade e Segurança Pública”, e o lema “A paz é fruto da justiça” (Is 32, 17). A violência corre solta no mundo de hoje, sem controle, deixando a sociedade desamparada, desesperada, com medo de viver. Como conseguir essa “Segurança Pública”, lema da Campanha da Fraternidade?

O que pensamos primeiro, quando vemos a expressão “Segurança Pública”? Lugar de bandido é na cadeia, os presos devem trabalhar para viver, sem regalias... É preciso uma polícia eficiente, que prenda e arrebente... Não são idéias como essas que nos vêm à cabeça? Não pensamos antes no nosso bem-estar pessoal, não somos absolutamente contra essa escória social que não nos deixa dormir? Pois, lembremo-nos de Isaías. Precisamos urgentemente lembrar-nos de Isaías.

Isaías sabia que a paz é fruto da justiça. Sabia que a insegurança do povo vem da imoralidade com a riqueza excessiva na mão de poucos, pouquíssimos. Sabia que devemos ser fiéis a Deus e não a Mamon. Não podemos servir a dois senhores, a Deus e ao poder. A paz é fruto da justiça e do direito, diz Isaías. A miséria é a ocasião que faz o ladrão. Nem todos os miseráveis são bandidos, mas a sua condição sub-humana de vida muitas vezes não lhes deixa melhor alternativa. Devemos pensar primeiro em armar a polícia e construir presídios fortificados – ou em dar condições de vida ao povo, trabalho, moradia, dar de comer a quem tem fome com se fosse o próprio Cristo? Lembrem-se do que Isaías falava das alianças políticas que se esqueciam de Deus! Todos sabemos que fazer política é fazer alianças para conseguir os objetivos – pessoais ou do partido, dos poderosos, das grandes corporações que os políticos acabam representando.

São insensatos, loucos, que se esquecem de Deus, dizia Isaías. Interessante como o mundo não muda! Mas podemos mudar ao menos as nossas cabeças. Pensemos e vivamos como cristãos, católicos, filhos de Deus e não de Mamon.

José Carlos Brandão - poeta, professor e agente da Pastoral da Formação, da Paróquia Santa Teresinha, de Bauru