Não nos deve impressionar o anúncio do Fundo Monetário Internacional estimando uma queda de 1% do PIB brasileiro em 2009. É mais um chute, como tantos outros que freqüentam o noticiário da crise que a maioria dos organismos globais não foi capaz de detectar em tempo útil. O FMI, particularmente, nunca foi bom em estimativas. Para se ter uma idéia de quanto são falhas as suas previsões basta lembrar um relatório de outubro de 2007, quando o mundo financeiro já vivia a crise, no qual o Fundo dizia que os dois anos seguintes seriam de tranqüila prosperidade. Hoje suas estimativas são ainda piores. Não deve ser por acaso que a confiabilidade do organismo tem piorado com Strauss-Khan de diretor-gerente, um ex-ministro da fazenda francês cuja incompetência é constantemente lembrada em seu país.
Ninguém pode querer que aceitemos a idéia que é possível saber, de antemão, o que vai acontecer numa determinada economia. Uma estimativa de crescimento exige que se saiba como o governo de um país vai responder aos seus problemas e mais ainda como o setor privado vai entender a política do governo e reagir aos estímulos (ou desestímulos). O que sabemos a respeito de 2009 é que tivemos um primeiro trimestre mais fraco do que se esperava. O governo poderia ter feito melhor do que fez, durante o pânico que se apoderou inicialmente do setor privado. Mas isso está superado. Já sabemos que o segundo trimestre vai ser pouquinha coisa melhor que o primeiro. O que temos a fazer nos dois terços restantes do ano é trabalhar para um crescimento maior no terceiro e quarto trimestres.
Há uma boa probabilidade de chegarmos ao final de 2009 com a economia se recuperando, crescendo próximos de 2% ou até 2,5% o que vai nos dar perspectiva de um crescimento muito melhor em 2010. Não há nenhuma razão para acreditar no FMI quando diz que não haverá crescimento no ano que vem. E menos ainda para nos preocuparmos com a demonstração de leviandade do Morgan Stanley, ao divulgar uma estimativa de queda de 4% no PIB brasileiro em 2010. Há muito tempo eles não conseguem sentir os odores debaixo de seus próprios narizes. É preciso distrair o público inventando problemas distantes. Todas essas estimativas, então, não valem rigorosamente nada. O que vai ser o ano de 2009 está a nosso alcance realizar. Depende de ampliação do investimento público, da contenção dos gastos de custeio para liberar recursos para o setor privado aumentar sua participação nas obras do PAC, nos setores da energia, dos transportes, da habitação, prioritariamente. Depende do Banco Central realizar uma política um pouco mais inteligente, de utilizar sua musculatura para dar tranqüilidade ao sistema bancário e restabelecer o crédito interbancário, algo que está perfeitamente ao alcance da autoridade monetária. O crescimento de 2009 depende, finalmente, de como o setor privado vai responder a essas medidas. Minha aposta é que vai dar um tremendo chute no derrotismo.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento