08 de julho de 2026
Geral

O temor da violência predomina

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

“Só de imaginar a possibilidade de eu ser assaltada um dia já me dá medo.” A frase é da auxiliar administrativa Fernanda Martins, mas poderia ser de muitas outras mulheres e homens. O temor da violência é quase generalizado. Fernanda nunca foi assaltada, mas corre esse risco diariamente. Faz 27 anos que realiza serviços bancários para a empresa em que trabalha.

Cada vez que fica sabendo de assaltos, fica preocupada. “Tem alguns casos que me deixam bastante impressionada. As pessoas levam tiro sem ter reagido. Outras morrem por causa de um par de tênis”, cita.

Por causa da profissão, o taxista Ed Wilson de Souza também corre diariamente o risco de ser vítima da violência. Afinal de contas, abre a porta de seu veículo o tempo todo para pessoas desconhecidas. Ele mesmo enumera uma série de assaltos e agressões sofridos por colegas de trabalho. Ele sabe que o serviço é arriscado, mas o maior temor dele é quanto à segurança das filhas, uma de 12 e outra de 8 anos.

Ed tem medo das más companhias e de que as filhas se envolvam com drogas. “Eu estou sempre conversando com elas. Mostrando que os pais são os melhores amigos, que os outros só são amigos quando convém a eles.” Ed sabe que os seus medos só vão aumentar, porque as filhas vão chegar a uma idade que não será mais possível controlar os passos delas. “Pelo menos, fiz a minha parte de pai.”

Enquanto isso, seu colega de profissão Manoel Messias, “morre de medo” de cair doente em uma cama de hospital. Nem mesmo a possibilidade de um assalto o assusta tanto. Ele trabalhou 19 anos como taxista em São Paulo. Durante esse tempo, sentiu por duas vezes o cano de uma arma encostada na cabeça. Segundo ele, nos dez anos que está em Bauru, nunca foi assaltado, mas o “medo sempre fica”.

A psicóloga Ana Lúcia de Mattos Torres, apesar de ser uma profissional que está lidando o tempo todo com os medos de seus clientes, também tem os seus próprios temores. O maior deles é morrer de forma violenta. Ana não gosta muito da idéia de ser vítima de uma tragédia. “A violência causa pavor não só em mim, mas em muita gente. É um medo generalizado”, afirma.

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‘O medo nos faz escravo do trabalho’

O desejo de quase todo ser humano é viver bem durante bastante tempo, ou seja, longevidade com qualidade de vida. É para isso que estudam e trabalham. Mas para a socióloga e psicóloga social Sônia Maria Alves Paschoal, há um dilema por trás dessa preocupação. Para conseguir qualidade de vida por bastante tempo, as pessoas precisam ter uma boa renda mensal. Para tanto, é preciso trabalhar muito e muitas pessoas têm feito isso. Segundo Sônia, o medo de perder o bom salário tem transformado alguns indivíduos em verdadeiros escravos do trabalho. E é aí que entra o tal do dilema. Para ter dinheiro suficiente para manter uma boa qualidade de vida precisamos trabalhar muito. Se trabalhamos muito, conseqüentemente, não temos uma boa qualidade de vida. Sônia lembra que muitos deixam de conviver com a família, trabalham até nos fins de semana, nos feriados, à noite, alguns não tiram férias, não viajam. Outros ficam com medo de ficar doentes para não perder dia de trabalho. A simples possibilidade de perder o emprego causa pavor. Conclusão: vivem em função do trabalho para garantir uns trocados a mais na conta bancária no começo do mês. Em troca, sacrificam a qualidade de vida.

De acordo com a socióloga, é a mesma coisa que estar caminhando sobre areia movediça. Quanto mais se mexe, mais afunda.