João Marcelo, 10 anos, é um aluno exemplar: costuma fazer todos os deveres de casa, acorda cedo para ir ao colégio, não conversa durante as aulas e tira boas notas nos trabalhos. No quesito convivência, no entanto, o estudante ainda não tirou nota 10.
“Meu filho não gosta de conversar com os colegas de classe e de participar das atividades recreativas que a escola proporciona”, conta Júlia, 36 anos, mãe do garoto. Assim como João, há muitas crianças que não demonstram vontade de interagir com seus coleguinhas de classe.
“Há uma questão importante a ser avaliada: se a criança é introvertida ou isolada. Se for a primeira situação, não acho que seja um problema. A partir do momento que você não a rotula, ela não sentirá que há algo de errado com ela e, muitas vezes, se fortalecerá com o passar dos anos. Se o pequeno ficar isolado do grupo, porém, aí é preciso haver uma dedicação especial da escola e da família”, explica Silvana Leporace, coordenadora do serviço de orientação educacional do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo.
“A partir dos 8 anos, a criança já começa a perceber que ela faz parte de um grupo e, por isso, pode se isolar por conta da cobrança dos pais ou até mesmo dos professores e companheiros de classe”, avisa Silvana.
Medo de cobranças
Para ela, “muitas vezes, o aluno está com medo de fazer algo errado e de ser cobrado no futuro. Para evitar cobranças, prefere não arriscar e se isolar totalmente do grupo”.
Segundo Maria Isabel Takimoto, orientadora educacional de educação infantil do Colégio Guilherme Dumont Villares, também da Capital paulista, cerca de 70% dos casos de isolamento podem ser sanados logo no início do ano letivo.
“Para que isso ocorra, é importante montar um bom exercício de adaptação, preparar a recepção dos alunos e proporcionar bem-estar aos estudantes, que vão afastando os fantasmas, deixando com que o medo vá embora. Sendo assim, perceberá que já está pronto para novas relações.” Feito isso, se a criança ainda continuar isolada do grupo, é hora de colocar o plano B em prática.
“Não é que você força o aluno a participar das atividades em grupo, mas cria uma armadilha, no bom sentido, que faz com que ele perceba que aquilo é algo interessante e que abrirá caminhos para a sua evolução, quebrando resistências”, revela Maria Isabel.
Nesse momento, a ajuda dos pais é fundamental para a evolução da criança. “Os pais precisam conversar com os orientadores e contar como o filho reage em casa, se é introspectivo, falante, se passou por algum problema recentemente. Afinal, pode haver até um lado patológico nessa situação.”