08 de julho de 2026
Articulistas

Educação e instrução

João E. M. Perea Martins
| Tempo de leitura: 2 min

O “toque de recolher”, que estabelece limites de horários para a permanência de menores nas ruas, em algumas cidades de São Paulo, como Fernandópolis, causou uma redução da violência. A medida é um fator educativo muito positivo, porém, pode ser inexequível em cidades maiores, onde o conselho tutelar não tenha recursos suficientes para a fiscalização e onde a polícia tenha problemas muito mais graves para resolver. Paradoxalmente, muitos menores envolvidos em problemas de violência são de classe média ou alta, e estudam em colégios particulares que lhes asseguram alto grau de instrução, mas que nem sempre lhes asseguram grau mínimo de educação.

Educação e instrução são coisas bem diferentes, pois enquanto a instrução é um conceito que se limita ao conjunto de conhecimentos adquiridos, a educação é um conceito mais amplo, que inclui o desenvolvimento intelectual, ético e moral, bem como a integração no contexto social. Infelizmente, este paradoxo se estende também às universidades brasileiras, que têm formado profissionais com alto grau de instrução e capacitação técnica, mas que, em muitos casos, ainda mantêm uma lacuna na formação educacional. Talvez isso explique o comportamento questionável de alguns profissionais, como alguns médicos, que, apesar do alto grau de instrução, ainda atendem os pacientes do SUS sem ao menos se dar ao trabalho de fechar a porta do consultório. São em pontos como estes que as diferenças entre educação e instrução se tornam contundentes. O lamentável é que muitos desses profissionais foram formandos por universidades públicas, custeadas com verba pública e agem como se não tivessem nenhum compromisso ou responsabilidade social.

De qualquer forma, o erro não é exclusivo dos colégios e universidades, mas também da sociedade como um todo, pois a educação deveria ser uma meta prioritária de instituições como a família, a mídia, as igrejas, os sindicatos, os partidos políticos, etc. Talvez, a negligência social do atual cidadão, que já foi jovem no passado, seja fruto direto de alguém que cresceu em uma sociedade cada vez mais permissiva, onde a família não impõe limites, onde o jovem cresce sem precisar estudar para ser aprovado em muitas escolas e onde, em muitos casos, o professor e o policial não representam absolutamente nenhuma autoridade ou fator limitador. Isso gera uma sociedade com uma absoluta escassez de líderes autênticos e onde o jovem cresce habituado a ver políticos se envolvendo em deploráveis escândalos de corrupção, sem que absolutamente nada lhes aconteça. Neste contexto, não importa a eficiência ou a simpatia do chamado “toque de recolher”, o que importa é a iniciativa de se tentar “educar” as pessoas mostrando que a impunidade e a permissividade não são características aceitas em nenhuma sociedade que queria se tornar efetivamente desenvolvida.

O autor, João E. M. Perea Martins, tem doutorado pela USP e é professor no Departamento de Computação da Unesp em Bauru, onde coordena o curso de bacharelado em sistemas de informação