No Ano Internacional da Astronomia, a biografia de um apaixonado pelo tema e que fez sua história em Bauru poderá ser incluída no programa “Memória do Mundo”, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Dentre tantos feitos, Luiz de Gonzaga Bevilacqua participou da “missão Compton”, cujo objetivo era pesquisar raios cósmicos, integrava a Sociedade Interplanetária Brasileira, antigamente situada na rua Saint Martin, e foi responsável pela idéia da elaboração de leis para o uso do espaço.
Dono de uma rica trajetória tanto no campo do conhecimento quanto no social, sua candidatura ao projeto brasileiro da Unesco partirá do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC) Gabriel Ruiz Pelegrina. “Se a gente for contemplada, a Unesco vai nos ajudar com recursos para preservar essa memória e divulgá-la para o mundo todo”, explica a professora doutora Terezinha Zanlochi, coordenadora do núcleo.
Todos os anos, a Unesco seleciona acervos documentais de interesse regional, nacional e internacional que passam a ter proteção especial pela relevância coletiva. É o caso, por exemplo, de documentos que contam a história e o trabalho de Guimarães Rosa, Osvaldo Cruz e Carlos Chagas -apenas para citar alguns exemplos em solo verde e amarelo. Ao excluir as fronteiras, também estão na lista, por exemplo, a partitura original da 9.ª sinfonia de Beethoven e a Bíblia de Gutenberg, ambos conservados em arquivos alemães.
Personalidades
Enquanto a Unesco recebe as candidaturas, um pouco da história de Luiz de Gonzaga Bevilacqua poderá ser acompanhado durante a 7.ª Semana dos Museus, a ser realizada entre os dias 18 e 22 deste mês, em todo o País. Em Bauru, ela também contemplará uma exposição do astrônomo, que será realizada na USC. “São projetos diferentes. O que liga um ao outro é o personagem. Se for aprovado, vamos ter o olhar da Unesco dirigido para nós, para outros projetos que fizermos em relação à preservação da memória”, explica Zanlochi.
Ela ressalta que outras personalidades de Bauru ou que viveram na cidade também tiveram projeções nacional e internacional, como é o caso de Rodrigues de Abreu, Mauricio de Souza e Jurandyr Bueno Filho. Mas para que a candidatura de Luiz de Gonzaga seja vitoriosa, a professora cobra a participação dos vários segmentos do município.
“Não adianta só a universidade estar empenhada em fazer esse trabalho. Aos olhos do edital (da Unesco), quanto mais parcerias nós estabelecermos, melhor”, reitera a professora doutora Sandra de Oliveira Saes, coordenadora geral da Extensão na USC. Luiz de Gonzaga, por exemplo, foi designado pelo governo brasileiro a receber e acompanhar Yuri Gagarin em sua visita ao Brasil, publicou vários artigos científicos e era membro da Associação Brasileira de Astronomia, entre tantos outros cargos e participações.
• Serviço
Outras informações podem ser obtidas no Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC) Gabriel Ruiz Pelegrina pelos telefones (14) 2107-7109 e 2107-7146.
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A história
Luiz de Gonzaga Bevilacqua participou da fundação da escola de pilotagem e planadores em Bauru, onde formou-se na primeira turma. Tornou-se piloto civil e piloto-aviador internacional (1940). Também pilotava planadores (1942). Por conta de seu envolvimento com a aviação, a Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, enviou a Bauru a Missão Compton (1941), coordenada pelo professor Arthur Compton, autor do “efeito compton”, relativo a raios cósmicos.
Luiz de Gonzaga integrou-se ao grupo de cientistas e apaixonou-se pelo espaço sideral, consta em arquivo da USC. De acordo com ele, Luiz de Gonzaga mergulhou em estudos ainda inéditos sobre o espaço aéreo. Dedicava-se à astronomia e à astronáutica em todos os momentos possíveis. De olhar profundo e enigmático, era carismático e eloqüente.
Carioca da Tijuca (1912), seu pai era procurador da Justiça e crítico musical. Luiz de Gonzaga também era neto de um professor de música, que deixou a Sardenha (Itália) em 1839 para atender a um pedido de Dom Pedro II. O imperador havia adquirido algumas pianolas e precisava de mestres musicais no Brasil. Luiz de Gonzaga herdou dele a sensibilidade.
Veio a Bauru ainda moço, em 1932, designado pelo presidente Getulio Vargas para exercer funções na contadoria central da República, junto à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Aqui, lecionou estatística metodológica e matemática (1933), no tradicional Colégio Guedes de Azevedo. Secretariou a Irmandade da Santa Casa de misericórdia (1941). Posteriormente, foi provedor (1946) e presidente (1978) da mesma instituição. Foi ainda presidente do Rotary por muitas legislaturas.
Casou-se com Zilda Abrunhosa Seabra (1935), filha do coronel Manoel Alves Seabra, morador pioneiro de Bauru. Com ela, teve quatro filhos: Maria Lucia, Luiz, Mário e Maria Cecília. Faleceu em Bauru, no dia 10 de maio de 1992.
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Contribuição da cidade ajuda na disputa
Como muitas pessoas conheceram e conviveram com Luiz de Gonzaga Bevilacqua, o Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC) Gabriel Ruiz Pelegrina espera a colaboração de diversos segmentos para complementar o acervo atual.
“Bauru toda deveria se unir. Associações tipo o Rotary. Ele esteve muito tempo à frente do Rotary. Dá para colaborar com fotos, cartas, postais”, explica a coordenadora do núcleo, Terezinha Zanlochi. De acordo com ela, até o dia 30 de junho a documentação deve ser encaminhada à Unesco para a inscrição da candidatura.
“Já temos fotos, cartas, telegramas da Rússia, mas a gente pede apoio da Câmara, da prefeitura, das pessoas comuns, dos médicos que foram amigos dele. Ele era uma pessoa muito afetiva, sensível. Sonhava com as estrelas”, acrescenta. Na opinião do filho Mário Bevilacqua Neto, outras características marcantes do astrônomo são dedicação e inteligência. De legado pessoal, lhe deixou a paixão pela aviação.
“Pai carioca é a melhor coisa que tem. Agora, a gente vai começar a trabalhar nisso, todo mundo vai trabalhar nisso”, conta, ao informar que procurará segmentos da sociedade para melhorar o acervo referente à história de seu pai. Uma das pessoas procuradas, por exemplo, será o ex-ministro Ozires Silva.