09 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Paradoxo


| Tempo de leitura: 3 min

“Ê, vida marvada, não dianta fazê nada...?”

Esse é um verso do nosso cancioneiro popular, com a sabedoria própria do povo, é como no dizer de Manuel Bandeira, “na língua certa do povo, na língua errada do povo”. Não dá para entender a vida. E por que teimamos em tentar entendê-la? A vida é paradoxal e com isso faz-nos também paradoxos ambulantes.

A um só tempo, estamos alegres e num instante nos sentimos tristes. A um só tempo, somos felizes e uma palavrinha boba qualquer nos faz infelizes. A um só tempo, amamos e somos capazes de odiar. A um só tempo, nos sentimos especiais e comuns. A um só tempo, nos sentimos muito amadas e por um gesto nos percebemos mal-amadas.

A dualidade do ser é coisa complicada. Complicada e séria, pois torna-o vulnerável ou forte dependendo das circunstâncias. Há que se entender essa dualidade para que se entenda o ser. Mas alguém, algum dia, será capaz de compreendê-lo?

Uma mulher apaixonada pode, da docilidade, passar à fúria se ela perceber um nuance sequer de desamor no homem amado. Uma mãe gentil vira uma fera se pressentir que sua “cria” corre algum perigo. De fato, quando nos sentimos ameaçados no nosso sentir ou querer, nos despimos de uma persona e assumimos outra sem que tenhamos tempo de voltar ao camarim.

O certo mesmo, neste complexo mundo dos viventes, é que o ser na sua essência mais profunda, precisa, carece, necessita sentir-se seguro em seus sentimentos, e, sem a confirmação constante dessa segurança, não consegue manter sua coerência.

Dizem os Guestaltistas, que só se vive em unicidade quando sentidor e pensador caminham juntos num mesmo passo... ou compasso. Há que se administrar tantas emoções, tantas confusões, tantas chateações... A fragilidade do ser é coisa indiscutível... mesmo os fortes, em determinados momentos sentem-se enfraquecidos.

A lucidez em certas ocasiões nos faz mais mal que bem. Bem-aventurados os simplórios. São felizes por nada saber. E pela vida afora, ou adentro, nem sei mais, todos esperam de nós, coerência, eficiência, tolerância, paciência...

Mas nunca ninguém nos ensinou a lição que nos fará aptos a driblar a dor de uma saudade ou a insensatez que algumas vezes tem vez no nosso ser. Quem, porventura, nos deu a lição que o coração não tem dono, e nas ordens é senhor?

Bem, viver é a arte do encontro diz o poeta, embora haja tantos desencontros pela vida. Mas o poeta é um fingidor, capaz de fingir que a dor que sente nem é dor.

Aos outros mortais, os comuns mortais, cabe apenas viver como manda as escrituras, deixando para cada dia o seu mal, ou completando, viver o bem de cada dia, porque não sabem quanto tempo durará. Seja como for, haja o que houver, custe o que custar, temos essa vida para viver. Todos queremos vivê-la bem; com alegria, com satisfação, com paz e com perdão... todos queremos sonhar e nossa busca maior e inconteste é ser feliz.

Não me saem da cabeça os versos da canção: “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, brilha tranqüila, depois de leve oscila precisa que haja vento sem parar”.

Ercília Ferraz de Arruda Pollice - escritora, poeta, colaboradora de Ju Machado Escritório de Arte.