Islamabad - O governo do Paquistão iniciou ontem uma escalada da ofensiva na região do Swat e encerrou oficialmente o fracassado acordo de paz firmado em fevereiro, que permitia a imposição da sharia (lei islâmica) na região. A operação, iniciada no último dia 26 em reação ao avanço do Taleban, já deixou pelo menos 200 mortos.
O Exército tem ordens para eliminar os insurgentes, anunciou premiê paquistanês, Yusuf Raza Gilani, selando em cadeia nacional de TV o fim do cessar-fogo. Dezenas de insurgentes e dez militares morreram ontem em combate, segundo o Exército paquistanês, que não divulgou dados sobre as baixas civis. Um dos mortos é filho do clérigo radical Sufi Muhammed, artífice do acordo do Swat. Fundador do movimento pró-sharia TSNM, atualmente comandado por seu genro e aliado ao Taleban, Muhammed abandonou a mediação após o início da ofensiva.
Com bombardeios e artilharia pesada, as mortes devem aumentar. Em comboios, moradores fogem da zona conflagrada. No início da semana, o Exército relaxou o toque de recolher, para permitir a saída da população. Cerca de 50 mil pessoas já deixaram a região. Os flagelados do conflito na região já superam 500 mil, segundo estimativa da ONU.
Dezenas de pacientes feridas à bala e por estilhaços de bombas, incluindo crianças, foram atendidos ontem no hospital de Mardan, no distrito de Malakad, que engloba o Swat. Gilani anunciou pacote de 1 bilhão de rúpias (R$ 43 milhões) para os flagelados do conflito e pediu apoio de todas as forças políticas e da sociedade civil aos militares.
“Aprovamos o pacto do Swat para conseguir a paz, apesar da pressão doméstica e internacional, mas não o respeitaram”, justificou Gilani, enfatizando a soberania da decisão, que atende anseios do governo dos EUA.
O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, assegurou hoje a soldados norte-americanos recém chegados ao Afeganistão que eles não serão enviados a combates no país vizinho, tranquilizando Islamabad. Analistas militares americanos consideram as tropas paquistanesas mal treinadas e pouco equipadas para a missão no Swat. Mesmo a vantagem numérica -15 mil militares contra estimados 7 mil insurgentes-, tem efeito limitado neste tipo de conflito, que usa táticas de guerrilha. A escalada da ação militar coincide com a visita do presidente Asif Ali Zardari a Washington, onde se reuniu com o norte-americano Barack Obama e o afegão Hamid Karzai para discutir o avanço dos extremistas.
O discurso nacionalista ganha força entre os paquistaneses, insatisfeitos a insegurança crônica. O apoio às ações dos EUA contra radicais islâmicos agravou as tensões internas no país, assolado por ataques terroristas. A violência, que pesou na queda do general Pervez Musharraf, persiste após a renúncia do ditador, em 2008.
O recente avanço do Taleban, que assumiu o controle de áreas a apenas 100 km da capital, Islamabad, expôs a fragilidade do acordo no Swat, selado em fevereiro. O Pentágono tinha recebido com ressalvas o cessar-fogo, alertando sobre o risco de fortalecimento dos radicais na região.