09 de julho de 2026
Cultura

Estação é palco para ‘O Último Vagão’

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

“Todos os dias é um vai e vem/A vida se repete na estação/ Tem gente que chega pra ficar/ Tem gente que vai pra nunca mais (...)/E assim chegar e partir/ São só dois lados da mesma viagem”. Assim como na composição de Milton Nascimento e Fernando Brant, a Estação Ferroviária de Bauru, voltará, neste final de semana, a ser ponto dos encontros e despedidas.

Todos estão convidados a embarcar na viagem trazida pelo “O Último Vagão”, espetáculo no qual os passageiros esperam apenas pelo trem da vida. A peça será apresentada hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 20h, pelo grupo Arte da Desforra. A entrada é gratuita.

Escrita há 20 anos pela bauruense Alba Simões, “O Último Vagão” pretende refletir a realidade do teatro brasileiro, ao propor um paralelo entre o estado de abandono das ferrovias e da classe teatral.

“Ao mesmo tempo em que dá vida a um local que é patrimônio da cidade, o espetáculo pretende provocar essa reflexão: o descaso com que o artista é tratado é semelhante ao tratamento dado às ferrovias, fazendo com que elas chegassem a essa situação de sucata”, explica o ator e diretor da peça, Carlos Eduardo Martins.

Com duração aproximada de uma hora, a peça, de encontro a sua reflexão sobre o cenário teatral, busca dar luz ao trabalho dos artistas locais, além da valorização da ferrovia. “Alba Simões merece essa homenagem. Temos que abrir espaço para mostrar o potencial dos artistas da cidade e valorizar o que é produzido localmente”, defende o diretor.

Diferentemente do que desejava o grupo, que teve o projeto da peça aprovado em 2007 pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o espetáculo será apresentado no saguão da Estação Ferroviária.

“Já é um avanço para o resgate do local. Mas o ideal para a peça mesmo era encenarmos nas plataformas. Mas não nos foi concedido pela prefeitura, que alegou falta de segurança”, afirma o diretor.

Além de Martins, que também atua na peça, o elenco conta com os atores Ana Helena Dias, Carlos Eduardo Martins, Letícia Ravanini, Renato Crisóstomo, Souto Vas e Susan Lopes.

Viagens

“O Último Vagão” segue seu trilho à medida em que o autor-personagem Nestor Adeus - um bêbado poeta - escreve a história das pessoas que vagam pela estação.

A atriz Violeta Espera é uma delas. Artista de algumas décadas passadas, a personagem busca o mundo do estrelato, mas, ao chegar à Capital, depara-se com outros seres solitários: o Diretor, a Cigana, o Caixeiro Viajante e a Grávida.

Quase que sem vínculos, os personagens vão retalhando monólogos em busca de respostas para o caminho de suas vidas. Mas, tal como a vida e o que todos pensam em viver da sua, os personagens acabam contracenando sem perceber.

“Eles não vêem um ao outro. A Cigana é a única que vê todo mundo e tem o destino de todos nas mãos. Os personagens, que pensam viver, na verdade, estão representando”, explica o ator e diretor da peça, Carlos Eduardo Martins.

Além da metalinguagem, o espetáculo é caracterizado pela falta de linearidade. “A Violeta e a Grávida são, na verdade, a mesma pessoa em diferentes tempos”, adianta o diretor.

“O texto é denso e escrito em formato de poesia. A primeira parte, mais pesada e dramática, ganha mais leveza e tons de comédia com uma virada que acontece no decorrer da história”, completa.

• Serviço

Espetáculo “O Último Vagão” hoje e amanhã, às 21h, e domingo às 20h, no saguão da Estação Ferroviária (rua Primeiro de Agosto, quadra 1). A entrada é gratuita. Informações: (14) 3235-1088.