Em visita a Trizidela do Vale e Bacabal, percebemos o quanto a ação das mulheres é crucial. Em Bacabal, no Ano Internacional da Alfabetização (1990), Josefina do Nascimento e colegas fizeram um “arrastão” para cadastrar todas as pessoas com 15 anos ou mais, ainda não-alfabetizadas (a maioria mulheres). Requereram do secretário de Educação a abertura de salas de alfabetização, mas não foram ouvidas. Assim mesmo, organizou uma sala com professora voluntária.
Estive em Bacabal poucos dias após as eleições. O candidato apoiado pelos donos do Maranhão não foi eleito. Em represália, todos os quatro hospitais foram fechados. Josefina estava doente e foi preciso levá-la, numa caminhonete, para ser atendida em outro município.
Para conhecer a situação das mulheres, visitei vários bairros dos municípios de Bacabal e Trizidela do Vale: Pedreiras, Santa Luzia do Tide, Imperatriz, Codó... Todos no Maranhão, onde ainda domina o coronelismo. São as mulheres as mais prejudicadas. Algumas são viúvas pelo assassinato de seus maridos militantes sindicais. Outras sobrevivem da coleta do coco babaçu ou da bacaba. As criminosas cercas em terras públicas impedem a coleta. Foi necessária uma longa e dolorosa luta até conquistar a “terra livre de babaçu”, ou seja, a liberdade de coleta.
Sou testemunha da luta dessas mulheres pelo direito ao primeiro registro de nascimento gratuito. Foram discriminadas e reprimidas, mas conquistaram. Os cartórios não cumpriam a lei. Sem registro, as crianças não eram aceitas nas escolas para se alfabetizarem. Em Santa Quitéria, o juiz Luís Jorge Silva Moreno determinou que todas as crianças da Comarca fossem registradas como manda a lei. Foi afastado, posto à disposição na capital e aposentado compulsoriamente com 42 anos de idade e apenas dez anos de serviço. Assim agem os donos do Maranhão, que acabam de retirar o governador Jackson Lago.
Pois é nessas paragens dominadas pelos coronéis que chuvas torrenciais têm feito estragos imensos, deixando milhares de desabrigados. Recentemente, o rompimento da barragem de Algodões I já provocou a morte de nove pessoas, inundando municípios inteiros. São cidades que visitei, mulheres cujos rostos são conhecidos.
Outros Estados também sofrem com as chuvas que, por si só, não causariam tamanho estrago não fossem o desleixo, a irresponsabilidade e a cobiça dos coronéis das regiões. Estima-se que outras 200 represas estão ameaçadas de rompimento.
“As medidas tomadas após o rompimento da barragem são apenas mitigadoras e constatam o pouco caso que se faz do funcionamento de um empreendimento de vulto que merece permanente vigilância dos órgãos de governo”, afirma a engenheira civil Carol Salsa, com pós-graduação em mecânica dos solos pela Universidade do Rio de Janeiro.
Ela declara ainda que ,“sabe-se visualmente e por consulta aos projetos quando uma estrutura não mais cumpre as funções requeridas, quer pelas leituras dos instrumentos, ensaios em material da barragem, fissuras visíveis, pela vida útil que uma barragem apresenta, entre outros. Deveria ser instituído não só nos meios técnicos e em outras esferas o que podemos e devemos aprender com os erros cometidos no passado”. Trata-se da uma afirmação de uma perita ambiental da Promotoria da Comarca de Santa Luzia (MG), pós-graduada em gestão ambiental e ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. A construção de muitas outras represas, a maioria de grande porte, é também o anúncio de hecatombes.
Culpados à parte - espero que sejam julgados e condenados - não se pode ignorar a precariedade da situação a que são forçadas a viver milhares de pessoas no Norte e Nordeste: são cerca de 800 mil. A CNBB/ Caritas Brasileira lançou a Campanha SOS Norte e Nordeste com contas bancárias que estarão abertas até 10 de setembro. Nessas circunstâncias, a solidariedade é primordial, enquanto pressionamos as autoridades para que destinem recursos urgentes e suficientes. Que ela se explicite em ações concretas e generosas.
A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora do Opinião