09 de julho de 2026
Articulistas

O homem e a máquina

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Mistério. O desaparecimento do Air Bus A330 no trajeto Rio-Paris suscita várias interpretações dadas por especialistas. Elas envolvem hipóteses sobre questões meteorológicas, falhas humanas, defeitos mecânicos e, a mais cruel das probabilidades: o aparato eletrônico da aeronave teria interpretado de forma equivocada as variações produzidas pela turbulência, e autodeterminado o mergulho no mar. A máquina rebelando-se às injunções do homem. Criatura contra o criador. O Air Bus é tão avançado que dispensa o trabalho dos pilotos. Comandante e co-piloto seriam meros contempladores de dezenas de relógios e piscar de luzes. Na era analógica os Constellations levavam, além dos pilotos, navegador, engenheiro de bordo, meteorologista. O Air Bus nem manche tem. Em seu lugar existe um stick, igual ao utilizado pelos garotos quando brincam com vídeo-games.

No filme de Stanley Kubrick “Uma odisséia no espaço” (1968), o computador Hal 9000 da espaçonave adquire vontade própria e resolve eliminar os viajantes siderais. No enredo, a inteligência artificial torna-se maior que o livre arbítrio dos navegadores humanos. Os cientistas conseguiram criar tecnologias superiores à capacidade de comunicação dos neurônios. Velocidades fantásticas permitem descobrir, projetar e recriar, somente com combinações binárias. Computador não é “cérebro eletrônico” como muita gente pensa. É um idiota que só conhece 0 e 1. Ainda não conseguimos inventar máquinas com instinto de sobrevivência. As geringonças são incapazes de sentir medo. Por isso lhes faltam capacidade de reagir a situações de perigo com a mesma variedade de sensações físicas e psicológicas próprias do ser humano. O aparelho não se angustia diante da iminência da morte. Reféns da decisão da máquina, os pilotos da Air France podem ter assistido ao desfecho do seu drama sem possibilidade de reação. O sistema “fly by wire” funciona sem conexões por cabos para acionar leme, flaps, profundores e todos os aparatos que dão dirigibilidade ao avião. Chips comandam relês, abrem e fecham válvulas hidráulicas. O primeiro piloto de provas norte-americano a testar o fly by wire perdeu o controle do seu caça e morreu. Imagine um raio que penetre na “Gaiola de Faraday”, a blindagem contra descargas elétricas indesejadas, e queime os circuitos deixando o avião sem controle.

Blaise Pascal (1623-1662) glorificou o homem – e a si mesmo – quando conseguiu inventar uma rudimentar máquina capaz de fazer operações de adição e subtração. Ele queria ajudar as tarefas do seu pai, um agente fiscal. Entusiasmado, previu que as tecnologias permitiriam ao homem o domínio da natureza, façanha somente possível a Deus. Quatrocentos anos depois temos processadoras que executam milhões de cálculos matemáticos em frações de segundo. E a natureza continua indomável.

O desaparecimento do avião no Atlântico vai dar margem a criações mitológicas. Provavelmente jamais teremos uma resposta definitiva quanto às causas do acidente. Tampouco sobre os limites da tecnologia e das habilidades humanas. A falta de destroços, nenhum corpo encontrado, por certo vão alimentar o imaginário de ufologistas e espiritualistas. A tragédia do voo 447: passageiros abduzidos, ou raptados mediante sedução por seres de outro planeta, indivíduos de uma civilização superior. Os bicheiros cariocas nem aceitam jogos na centena. Somente a maratona jurídica para receber pensões, seguros e heranças vai demorar décadas. Para que a sucessão familiar se realize a lei determina que haja atestado de óbito expedido por um médico, após a análise de um cadáver. A declaração judicial de morte presumida vai consumir muito tempo. Familiares exigirão indenizações por danos morais, pelo sofrimento e abalos psicológicos. Muitos parentes das vítimas da queda do Fokker-100 da Tam, em São Paulo, ainda não viram a cor do dinheiro, 12 anos depois.

Por mim, lamento mais os sonhos desfeitos das 228 pessoas que estavam a bordo. Primeiro porque deixaram de ver Paris na Primavera, principalmente as flores dos Jardins de Luxemburgo que explodem em cores nesta época. O casal em lua de mel; o passageiro que ganhou a viagem como prêmio pela formatura; o jovem que viajava a serviço da sua brilhante carreira; as crianças que sequer tiveram a oportunidade de gozar e sofrer. Tudo e todos desintegrados. De repente. Num átimo. Viver é muito perigoso, e não é não, dizia o velho Rosa. O que realmente importa no final de sua estada na terra é com que intensidade você amou. É o que se leva.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC