A Revolução Industrial deu “start” à idéia de velocidade. Com o tempo, ela foi incorporada e naturalizada. Passou a integrar o próprio espírito humano, explica o antropólogo Cláudio Bertolli, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Ficou uma noção muito clara na nossa consciência de que a vida é curta. Sendo curta, precisa ser aproveitada com uma multiplicidade de atividades”, analisa.
O resultado é um conjunto de novas neuroses. “Por um lado, as pessoas sentiram que fizeram muitas coisas. Por outro lado, sentem que não viveram esse conjunto de atividades porque foram realizadas rapidamente”, comenta o antropólogo. Atualmente, a lógica capitalista da rapidez nos faz considerar até doente quem não a assimila, quem não vive sob o lema “tempo é dinheiro”, diz Bertolli. Na contramão, alguns grupos bem restritos tentam rever essa noção.
“Os hippies fizeram isso lá nos anos 60. Por que não saímos desse espaço urbano, que nos incita a fazer mais e mais, e vamos nos recolher em comunidades rurais? A busca da chamada tranqüilidade acaba sendo interessante. O mundo capitalista se aproveita disso, inclusive. As pessoas recebem inúmeros e-mails de hotéis-fazenda convidando para espairecer, para fazer as coisas mais devagar”, destaca o professor. Ele explica que rapidez também está associada ao modernismo. A poesia “Bauru”, de Rodrigues de Abreu, por exemplo, elogia o movimento.
“A vida nunca é pensada parada. Fomos tão treinados, tão disciplinados, que não percebemos nenhum tipo de velocidade. Falamos rápido, dirigimos rápido, casamos, descasamos. Todo esse agito passou a ser normal. Só enxergamos a velocidade no outro. A nossa, não reparamos”, pondera o antropólogo. A mesma pessoa que critica excessos também os comete, ele afirma. Quanto à contradição da exigência da velocidade no cotidiano e a proibição delas nas ruas, Bertolli esclarece que o homem entende a realidade a partir da fragmentação.
Comportamento
“Sempre aspiramos ao total, ao holístico, mas não tivemos essa capacidade de olhar o todo. O próprio saber foi dividido - em história, geografia, filosofia, por exemplo”, acrescenta o professor da Unesp.
A velocidade também está relacionada à onipotência. “Eu tenho o controle do carro, da direção, acabo me auto-afirmando. O excesso de velocidade é um comportamento estudado pela psicologia muito mais em adolescentes e adultos jovens”, acrescenta o psicólogo e professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) Marcelo Mendes.
Ele também é coordenador do curso de perito e examinador do trânsito. “Nessa fase, pelo próprio desafio, pelos próprios enfrentamentos, na busca de quem eu sou, o carro passa a ser uma ferramenta de auto-afirmação. Hoje, o carro serve para o trabalho, para o lazer. Ter um carro está muito associado à condição social. As pessoas estão muito mobilizadas a ter um meio de locomoção, ter o melhor carro. Isso tem relação com status, com popularidade”, analisa o psicólogo.
Mendes defende políticas institucionais de educação para o trânsito. “É carente para o adolescente. O ensino fundamental tem trabalhado algumas coisas de tolerância, de valores. Só que, para adolescentes, há carência de políticas públicas de valorização da vida. De não usar o carro como arma, de não valorizar o excesso de velocidade”, conclui.