09 de julho de 2026
Regional

Fiéis buscam a cura para dores do corpo e da alma

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Uma multidão de devotos disputa espaço na barranca do rio Tietê em Anhembi para receber os barqueiros no Dia do Divino. São pessoas que conquistaram ou que pedem graças para continuar a vida. Os dois barcos com 80 tripulantes são recebidos com uma chuva de fogos, palmas e muita música, depois de se encontrarem no meio do rio e formarem um grande coração.

O desembarque da Irmandade do Divino é um ritual cumprido há 150 anos. Os barqueiros descem e tem início a procissão do Divino e de Nossa Senhora dos Remédios, a padroeira da cidade. À frente seguem as imagens, as autoridades católicas e os barqueiros com a bandeira do Divino, símbolo das bênçãos.

Deitadas umas ao lado das outras sobre lençóis, as pessoas aguardam a passagem da bandeira e da irmandade do Divino que segue rezando, abençoando e acalmando. Por onde passam deixam um rastro de paz e harmonia.

Para os fiéis, esse é o momento mais importante do evento. É quando os devotos expõem suas dores, do corpo e da alma em busca de cura. Cleusa de Fátima Nogueira, por exemplo, veio para a festa do Divino pela 4a vez consecutiva. Os pedidos feitos nas três primeiras, foram alcançados, porém não revelados.

Mãe de dois filhos, ela busca a cura para ambos. “Um está preso em Assis. Ele praticou um furto. Além de sair da cadeia, quero que ele se transforme. Que volte a ser um bom moço. O outro, tem problemas de saúde.”

Pela cura do marido, Angélica Bruneto saiu de Londrina/PR e com ele foi para Anhembi pela primeira vez. “Ele está com uma doença grave e nós estamos apostando na cura pelas mãos do Divino.”

O mesmo caminho em busca da cura percorreu Etelvina Rodrigues, 76 anos. “Os médicos me consideraram inválida. Eu vim aqui e estou andando até hoje. Retorno todos os anos para agradecer e confirmar a minha fé.”

A idosa também coloca sua contribuição monetária para a irmandade. “Tem um dos integrantes que recolhe as contribuições. O dinheiro ajuda nas obras da igreja”, explica.

Agradecer as graças recebidas também motivou Sônia Maria Fernandes Gianoni a sair de Avaré e ir para a festa do Divino. “Eu fiz um pedido e consegui alcançar a graça. Retornei para agradecer”.

História diferente tem Aparecida dos Santos que há quatro anos freqüenta a festa. “Eu venho com a minha mãe, por tradição. Não pedimos nada. Recebemos as bênçãos e passamos o ano todo com saúde.”

Cauãne Merlone tem só três meses e um problema de refluxo. A mãe, Kátia Helena de Campos já tentou muitos tratamentos, mas não conseguiu livrar o bebê do incômodo. Cheia de fé, ela levou a menina para receber as bênçãos do Divino. “Acredito que ela será curada.”

História começou com uma promessa

Há mais de 150 anos, quando Anhembi nem tinha este nome, um surto de febre amarela atacou a região. Muitas pessoas morreram de uma febre que a medicina da época não encontrava explicação e solução. Uma das família ribeirinhas fez uma promessa para o Divino Espírito Santo e nunca mais as pessoas daquelas propriedades rurais morreram, vítimas da doença desconhecida à época.

A partir de então, as famílias começaram a rezar e a comemorar o Divino Espírito Santo. Todo ano, a família que fez a promessa peregrinava pelos sítios ao redor e rezava. O anfitrião oferecia jantar, almoço e pouso. Até hoje, a promessa é cumprida.

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Peregrinação começa nove dias antes

A Irmandade do Divino reúne pessoas de idades e profissões totalmente diferentes. Os mais velhos têm a função de ensinar os mais novos a “trabalhar” como multiplicadores da fé. Nove dias antes da festa, um grupo deles parte pelo rio Tietê fazendo uma peregrinação. Vestidos de azul, ele visitam as propriedades ribeirinhas e fazem orações, novenas e recebem refeições e pouso.

Clayton André Divino de Oliveira faz parte da Irmandade e explica. “É uma tradição. Antigamente, o grupo realizava de 15 a 20 pousos. Depois de 2005, a peregrinação diminuiu e passou a ser nove. O grupo visita a propriedade para rezar. O anfitrião oferece um café da manhã, o outro, o almoço e quem é visitado no fim da tarde, o jantar e pouso.”

A situação já é tão costumeira que os sitiantes das imediações se candidatam a oferecer o pouso que sempre é acompanhado de uma boa prosa e muita reza. Morador há 45 anos de Anhembi, o aposentado Natálio José Angeli, 61 anos, faz questão de oferecer um almoço no rancho que tem à beira do rio Tietê.

“Todo ano ofereço um almoço e recebo a irmandade no rancho. É uma confraternização muito boa e uma oportunidade de obter as bênçãos do Divino.

Na irmandade, segundo Oliveira, só podem ingressar homens que sejam casados na igreja ou que estejam solteiros. “Não são aceitos homens que vivem juntos com mulheres, mas que não receberam as bênçãos de Deus na igreja”.

Cerca de 400 ônibus

Na avaliação do Policiamento Rodoviário de São Manuel aproximadamente 400 ônibus chegaram a Anhembi entre a madrugada e manhã de sábado. Uma área logo na entrada da cidade foi reservada para estacionamento dos veículos de grande porte.

Da mesma maneira como chegaram, gradativamente, os coletivos deixaram a cidade após os festejos. Segundo o sargento Elaison Rodrigues, em função da pista ser simples, a saída dos ônibus foi coordenada para evitar congestionamento e acidentes.

“Os veículos de grande porte foram sendo liberados de três em três. Entre uma e outra saída demos um tempo.”

A festa também exigiu um reforço de policiamento, de acordo com o sargento. “Essa rodovia normalmente tem um fluxo de veículos abaixo do registrado no período da festa. O Departamento de Estradas e Rodagens (DER) de Rio Claro e de Bauru também nos apoiaram. ”

Para chegar a Anhembi partindo de Bauru basta acessar a rodovia Marechal Rondon, sentido Botucatu. Passa Botucatu e segue sentido Conchas até a rodovia Lázaro Cordeiro de Campos.