08 de julho de 2026
Turismo

Do bolo-de-rolo à carne de bode

Por AE | Com Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 5 min

O que não falta em Pernambuco é comida boa, com “sustança”. Seja em Caruaru, seja nos balneários, seja na “Veneza brasileira”, como Recife, que por sua beleza foi assim batizada.

A gastronomia pernambucana é uma das mais premiadas do Brasil, ocupando destaque em livros e edições conceituadas.

Comidas doces e de sal, preparadas com temperos e frutas regionais. Peixes, frutos do mar, carne-de-sol, bode, macaxeira, bolo-de-rolo... Muitos são os temperos, sabores e texturas da culinária pernambucana. Cada região do Estado tem uma especialidade distinta, e não faltam bons lugares para se fartar.

Comece pelo caldinho

A começar pelo Recife, onde há inúmeras opções. Se quiser comida de qualidade - com uma bela paisagem de lambuja -, o Biruta, na frente da Praia do Pina, é a pedida. O costume regional é começar com um caldinho, para abrir o apetite - lá, são servidos o de peixe, feijão ou marisco.

Para o prato principal, a dica é o camarão matuto, servido na telha de barro, com queijo coalho e arroz de brócolis. Serve bem duas pessoas.

Outro ponto interessante é o Entre Amigos, cuja especialidade é o bode. Livre-se de preconceitos e pelo menos experimente.

Um bom começo é o petisco de picanha. Mas se estiver com uma turma boa de garfo, peça o pernil de bode, que serve seis pessoas. Acompanha feijão verde, arroz-de-carreteiro, farofa de jerimum, pirão de queijo e batata ao murro.

Na vizinha Olinda, um endereço é obrigatório: o Oficina do Sabor. É comandado pelo chef César Santos, que cria maravilhas com ingredientes regionais. Entre as especialidades está o jerimum recheado com lagosta ao creme de coco, para duas pessoas.

Difícil escolher a sobremesa: travessa de doces caseiros, bolo-de-rolo (espécie de rocambole mais fino e recheado com goiabada), queijo coalho com mel de engenho...

Se a idéia for curtir um fim de tarde com uma bela vista das praias de Olinda, o Marola Bar pode ser interessante. De petisco, experimente o caranguejo. Se estiver com mais fome, o bacalhau ao forno, com purê e molho de queijo, serve três pessoas. Outra opção é o camarão ao coco, para duas pessoas.

Porto de Galinhas

Rumo ao litoral sul, outra parada imperdível é o Beijupirá, em Porto de Galinhas. Criado há 15 anos, o restaurante traz pratos regionais refinados e apresenta uma decoração simples e, ao mesmo tempo, cheia de charme. Talheres colados no chão dão um toque irreverente ao ambiente.

O cardápio não decepciona. Comece pela caipirinha de frutas regionais (graviola, pitomba, cajá, umbu...). Praticamente todos os pratos com o peixe beijupirá, especialidade da casa, são individuais. Um deles é o beijucastanha, feito na chapa, coberto com manteiga de castanha de caju, com batatas flambadas e arroz de espinafre.

Em Goiana, a 60 quilômetros do Recife, já na zona da mata pernambucana, o Buraco da Gia tem mais de 50 anos de tradição servindo guaiamum, um tipo de caranguejo. Ele dá origem a vários petiscos, todos deliciosos. Para o prato principal, a dica é o filé de peixe com camarões, para duas pessoas.

• Serviço:

Restaurantes:

Biruta: (81) 3326-5151

Entre Amigos: (81) 3222- 6705

Oficina do Sabor: (81) 3429-3331

Marola Bar: (81) 3429-7079

Beijupirá: (81) 3552-2354

Buraco da Gia: (81) 3626-0150

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Doce como açúcar

O relançamento de “Açúcar” é um daqueles acontecimentos capazes de fazer com que as pessoas de bem andem todas por aí lambendo rapaduras, em missão patriótica. O livro de Gilberto Freyre mistura tratado sociológico com 195 receitas e, ao final, faz uma defesa deliciosa do brasileiríssimo gosto pelo “doce muito doce, excessivamente doce”.

Lançado em 1939, “Açúcar” provocou espanto. Como Gilberto Freyre, seis anos depois de explicar o Brasil em “Casa Grande & Senzala”, foi se meter em um livro com receitas nordestinas de bolos e cocadinhas?

Na introdução, ele explica: “Se esse livro parecer frívolo ao leitor que não goste de doce, que ele se recorde daquele conceito de Eduardo Prado: o paladar defende no homem sua identidade nacional”.

“Açúcar - Uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil” (272 páginas, editora Global) defende que a queda dos brasileiros para as sobremesas muito açucaradas é a expressão da originalidade de um povo.

Em favor de sua tese, Gilberto Freyre faz uma volta completa - e com um daqueles textos bons de devorar. Mistura referências a Padre Antônio Vieira, Marx, Machado de Assis, Camões, sinhás doceiras e “mulatos boleiros de fala fina”.

Situa a doçaria como forma de arte. Nota como o doce se descolou da alimentação para virar prazer, recreação, pecado. E aponta o poder do açúcar de adoçar até a linguagem, enchendo as expressões brasileiras de dengos.

“Açúcar” traz até um rol das sobremesas preferidas de brasileiros ilustres. Mas é antes um esforço para apontar a existência de um paladar brasileiro histórico - típico de um povo descendente de portugueses, com sangue mesclado em árabes e mouros.

Um gosto coletivo compreensível em uma terra movida, em dias decisivos de sua formação, pela onipresença da cana. Freyre defende a ação civilizatória do açúcar na culinária, rebate o argumento europeu de que, em nossos doces, ele é excessivo aponto de matar sutilezas e ironiza a chegada do primeiro grupo de cozinheiros franceses, “muito ancho e triunfante de si”.

Mas lembra nossa mistura genética: “Nós, brasileiros, nem sempre sabemos o que é exótico para nosso paladar: se o europeu, se o tropical”.