09 de julho de 2026
Articulistas

A imprensa, os urubus e a repressão

Ciro Monteiro
| Tempo de leitura: 3 min

Certo dia, assisti a uma peça de teatro chamada “O Rei dos Urubus”. A apresentação teve características cômicas-críticas e a história se desenvolvia entre o diretor de uma emissora de televisão e seus funcionários. Em longos diálogos e estratégias, o diretor tentava convencer (pressionar) seus apresentadores a fazer um programa popular que atingisse altos índices no ibope. Os apresentadores e produtores se desdobravam para conseguir figuras populares e atores de novelas que se deram mal na vida, ou então abordavam temas de conflitos familiares (estratégias de vários programas como Márcia, Volpato, entre outros). O diretor dizia: “(...) quanto mais problemas, conflitos, dramas (carniça), melhor o ibope”.

Um único jornalista “ético”, que era funcionário da emissora, tentou mudar o programa, mas não deu ibope e a peça terminou com esse mesmo comunicador apresentando um programa nos moldes iniciais melodrama-sensacional. Refletindo sobre o título da peça “O Rei dos Urubus”, cheguei à seguinte conclusão: O Rei (é o dono da emissora da TV ou meio de comunicação) e os urubus são os jornalistas que procuram notícias podres (carniça) para alcançar altos índices de ibope.

No nosso dia-dia isso não é diferente. As emissoras de televisão são empresas de comunicação cuja informação e produção são voltadas para o consumo de massa, com interesses globais e que movimentam enormes capitais, detêm grande dose de poder político e se apropriam das notícias podres para obter audiência e lucro. Nesse sentido, podemos analisar as declarações feitas pelo apresentador do programa Brasil Urgente, Datena ao observar as manifestações de estudantes, funcionários e professores na USP. Segundo o apresentador, “Tem muita gente pobre que queria estudar e não consegue entrar na universidade pública (grifo meu)” ou “A sorte desses estudantes é que o governador foi líder estudantil”. A primeira declaração tem um viés de carniça, pois mexe com o coração da população que logo pensa: “É verdade Datena, meu filho queria entrar na universidade pública e não consegue”. Por meio dessa declaração, o apresentador deixou clara a falta de compromisso ético com o jornalismo e incorporou o “jornalista urubu” para trazer o público ao seu lado.

De fato, o governador José Serra foi líder estudantil da União Nacional dos Estudantes (UNE), órgão que grande parte dos estudantes hoje desconsidera sua representatividade. No entanto, foi presidente deste órgão e hoje sabemos que foi um nítido interesse de projeção política. Aliás, se o governador teve algum dia interesse de defender e representar os estudantes e a sociedade se esqueceu totalmente no dia 9 de junho, quando a polícia entrou no câmpus da USP, sob sua aprovação e da reitora Suely Vilela (atitude desprezível) e agrediu os estudantes, o que deixou ao menos 10 feridos.

Datena não falou sobre as reivindicações dos estudantes que, entre outras, pedem auxílio-moradia (pois sem este o estudante carente não tem como ficar na universidade), contratação de professores (há defasagem imensa de professores que são substituídos por professores-contratados que recebem renumeração ridícula de mais ou menos R$ 800) e se esqueceu de explicar por que os estudantes se posicionaram contra a criação da Universidade Virtual de São Paulo (Univesp), que tem como objetivos o barateamento dos custos com a educação e a promoção do governador José Serra em sua campanha para a presidência em 2010. Para Tânia Regina de Luca: “(...) pode-se afirmar que o conhecimento que temos da realidade é mediado pelos fatos divulgados pela imprensa escrita e radiotelevisiva”. Nesse sentido, enquanto aceitarmos programas sensacionalistas e opiniões de jornalistas urubus como o Datena sem uma postura crítica, estaremos fadados a conhecer a realidade a partir dos interesses dos grandes empresários da comunicação “Os Reis dos Urubus”.

O autor, Ciro Monteiro, é professor de história e estudante de biblioteconomia da Unesp de Marília