09 de julho de 2026
Geral

Fé atribui o caminho a São Tomé

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Os capítulos iniciais da história brasileira envolvem o Caminho de Peabiru em outro mistério. Na época, a desenvoltura e a técnica utilizada no trajeto foram atribuídas a um milagre de São Tomé, apóstolo de Jesus Cristo cuja missão era evangelizar.

“E o homem nativo que o português encontrou na praia e no sertão mostrava-se inexperto nas artes e nas técnicas viárias, incapaz de tal realização. E quem abriu este caminho tão longo e tão bem feito? Pay Sumé. Quem ouviu a resposta, religioso, militar, colono, aventureiro, oficial do rei, ouviu com ouvidos católicos o informe do pagão. E impulsionado pela fé e pelo patriotismo, confundiu-se prazerosamente: - Sumé?! Mas é de São Tomé que estão falando!”, consta em trecho do livro ‘Sumé e Peabiru – mistérios maiores do século da descoberta’, de Hernâni Donato.

De acordo com o autor, trata-se da sincretização Sumé-Tomé. “É uma crença religiosa. Se acreditar que os apóstolos puderam tudo, acredita (nesta história). Porque mil anos não seria nada para a divindade. Mas é possível acreditar em Deus e duvidar de um fato como este”, comenta com a reportagem. Para os nativos, a figura apontada como São Tomé tinha um espírito altamente superior.

A ‘Legenda Áurea’, escrita na Idade Média por Tiago de Voragine, elenca reinos prodigiosos do Oriente nos quais São Tomé teria cristianizado príncipes e plebeus. Isidoro, no ‘Vida e Morte dos Santos’, relaciona partos, medos, persas, hircânios e bactrianos entre os convertidos por ele. Nada de inacreditável, portanto, para a gente de então, que o apóstolo pudesse e quisesse ter feito o mesmo com tupis, guaranis, incas, araucanos e mais povos americanos, consta na obra de Donato.

“A esses quinhentistas fora ensinado que o próprio Cristo, antes de voltar ao céu, designara o pedaço de mundo que viria a ser chamado América para receber os cuidados do apóstolo Tomé”, informa outro trecho da obra ‘Sumé e Peabiru’.

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Pegadas

Os crentes dispunham até de provas a demonstrar a quem duvidasse dos feitos de Sumé. “Pegadas do santo foram vistas e reverenciadas em muitos lugares. Em 1515, a ‘Nova Gazeta da Terra do Brasil’ aludiu à “lembrança que os índios tinham de São Tomé, cujas pegadas quiseram mostrar aos portugueses”’, consta no livro de Hernâni Donato. A obra aponta relatos do jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, segundo quem, em todo o Brasil, portugueses e nativos dispunham da informação de que o santo apóstolo iniciou a marcha na Ilha de Santos, onde se vêem suas pegadas impressas numa grande penha em frente à barra de São Vicente, local em que desembarcou.

“Estas pegadas estão em toda parte. Existem em todos os continentes. A maior parte foi levada como relíquia. São intemperismos. Mas Sumé foi uma figura fantástica, que está no populário de toda a América, com nomes diversos”, conclui o pesquisador. O apóstolo voltou à Ásia e morreu na Índia, ferido com uma lança.

Curioso é que a tsunami de 2004 devastou a região onde estão guardadas suas relíquias, mas o local exato onde estão acondicionadas não foi atingido pelas ondas gigantes.