11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Rosa Maria Tolón: Mãos de pianista, alma musical

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Rosa Maria Tolón nasceu no dia 29 de agosto de 1953 em Havana, Cuba. O gosto pela música erudita e pela arte de tocar e de sentir a música vinda do piano começou desde cedo. Aos 8 anos de idade o talento nato de Rosa já se destacava entre as irmãs e foi aí que sua trajetória começou na Escola Nacional de Artes, em Cuba, e culminou com o doutorado em Moscou, Rússia.

Foi em um dos eventos internacionais que a pianista conheceu um grupo de bauruenses e recebeu o primeiro convite para trabalhar na cidade. A primeira estadia durou apenas duas semanas. Depois três meses, um ano e, há dez, ela adotou Bauru como sua segunda casa.

Professora na Universidade do Sagrado Coração, ela fala ao Jornal da Cidade sobre os eventos musicais como o Bauru-Atlanta Competition, o amor pelo piano e pelos alunos brasileiros, a saudade de Cuba e as dificuldades de encontrar apoio para a arte no Brasil. Confira os principais trechos da entrevista.

JC - Quando você veio de Cuba para o Brasil?

Rosa – Definitivamente, isso aconteceu entre 1998 e 1999.

JC - O que a trouxe para Bauru?

Rosa - Em 1996 eu conheci um grupo de estudantes brasileiros que participavam de um evento internacional de piano em Havana. Nesse evento, eu era uma das palestrantes e um brasileiro de Bauru ganhou um prêmio e uma bolsa de estudos por um ano. Quando terminei as palestras, um grupo de pessoas se aproximou e começaram a perguntar sobre meu trabalho. Ficamos amigos e passamos todo o evento juntos. Eles estavam um pouco nervosos porque era a primeira vez que saíam do Brasil. Porém, se saíram muito bem e foi por meio desse contato que surgiu o convite para eu realizar um curso de verão voltado para pianistas e professores de piano na Universidade do Sagrado Coração (USC). Essa foi minha primeira viagem ao Brasil e fiquei aqui por duas semanas.

JC - E essa experiência foi tão boa a ponto de te fazer voltar?

Rosa - Sim. Desse primeiro curso surgiu um segundo convite. Voltei em 1998 para ministrar um curso de maior duração e atender os alunos da universidade. Dessa vez, fiquei por três meses e fui embora. Logo em seguida veio um novo convite para voltar e dar aulas por mais um ano. De um ano, foi para dois. Depois mais dois e estou aqui até hoje, há 10 anos.

JC - Por que o ‘sim’ aos convites?

Rosa - Eu já tinha participado de vários eventos internacionais de piano e estava acostumada com pessoas de outras nacionalidades dentro da área da música. Já morei em Moscou onde conheci muitos latinos e aprendi a viver com eles como uma família. Acredito que os latino-americanos são parecidos em muitas coisas como o caráter, por exemplo. Claro que cada nacionalidade tem suas características próprias, mas somos parecidos em muitas coisas, acho que daí veio a familiaridade com os brasileiros.

JC - Você estudou em Moscou?

Rosa - Sou formada em Cuba. Estudei piano desde os oito anos de idade na Escola Nacional de Artes. Costumo dizer que faço parte de uma geração privilegiada de Cuba porque pegamos os anos mais românticos da revolução, ou seja, entre 1962 e 1963. Nessa época, tínhamos tudo à disposição. Eu estudei piano até o nível superior em Havana e fiz doutorado em Moscou. Ganhei uma bolsa e morei na Rússia por quatro anos.

JC- Você teve dificuldades com Língua Portuguesa?

Rosa - Aprendi o português aqui e apanhei muito para isso. Falo muito rápido e isso faz com que as pessoas não acompanhem. Além de aprender no cotidiano, eu tive aulas porque senti a necessidade de me expressar o melhor possível para dar aulas.

JC - A família continua em Cuba?

Rosa - Fui casada há alguns anos e tenho um filho que mora aqui no Brasil. Ele veio a passeio, se apaixonou pela cidade, pelo jeitinho brasileiro e hoje mora em Bauru também. Mas, vou a Cuba quase todo ano ver minha mãe, parentes e amigos. A saudade é grande.

JC - Quando você pensa no seu país de origem, do que mais sente falta?

Rosa – Nossa, como sinto falta do mar. Sempre vivi em Havana que tem cerca de 14 quilômetros de orla marítima e, da janela do meu apartamento, eu podia ver o azul daquele mar ao acordar. Sinto falta do cheiro dele, da cor, de tudo. Às vezes, fecho os olhos e finjo que posso vê-lo.

JC - Quando você decidiu que dedicaria sua vida à musica e ao piano?

Rosa - Não temos músicos na família, mas sempre valorizamos a arte. Papai e mamãe cantavam amadoramente. Ela estudava violão e minhas irmãs, que são mais velhas, estavam aprendendo a tocar piano, eu não podia nem tocar no instrumento porque era menor e podia quebrar. Então, abriram as escolas de arte em Cuba e minha mãe levou minhas irmãs para fazer o teste e começar a estudar. São escolas maravilhosas com tudo de graça e, claro, para entrar nessas escolas há uma seleção. Minhas irmãs tinham 12 e 13 anos e foram fazer o teste, eu fiquei brincando no jardim quando a professora me chamou e perguntou se eu não gostaria de fazer a prova também. Prontamente disse que sim e para a surpresa de toda a família, a única aprovada fui eu.

JC - E como foi a reação da sua família?

Rosa - Ah, tudo mudou em casa. Aquele piano proibido passou a ser meu, minhas irmãs ficaram frustradas e nunca mais tocaram piano. Aí, comecei a estudar piano nas escolas de artes de Cuba com professores excelentes e de alto nível vindos da Rússia e da Bulgária, e foi nesse momento que tudo começou. Eu tinha apenas oito anos de idade.

JC - Qual é o espaço que as artes têm no seu país de origem?

Rosa - Cuba dá todo o espaço para as artes. O mesmo não acontece aqui no Brasil. A juventude latina é sempre muito musical e talentosa, nesse sentido um país não é mais que o outro. A dificuldade está em encontrar apoio, programação e até mesmo público. Muitas vezes, até a família é contra. Os estudantes da música têm que dedicar muito tempo aos estudos. Uma das coisas que me surpreende neles é o fato de fazerem isso tudo por amor, vocação e dedicação à música e, infelizmente, eles não vêem o reconhecimento social. Em Cuba, não é apenas o governo quem dá o incentivo, a população gosta, prestigia o artista. Quando cheguei na cidade, eu não entendi porque, Bauru sendo uma cidade musical e com jovens bem preparados, eles não encontram espaço para mostrar sua arte à população. Esse é um dos elementos que me motiva a criar eventos.

JC - Quais eventos você já criou desde que chegou a Bauru?

Rosa - A programação cultural da cidade é muito ruim e não valoriza os anos de estudo dos artistas. Durante esses dez anos que estou na cidade eu tenho organizado, quase que por iniciativa própria, uns 25 eventos de diversos tipos.

JC - Desses 25 eventos, o que mais te marcou?

Rosa - Claro que todos marcam e ficam na memória. Mas os que mais me marcaram foi um festival de música de câmara, ou seja, música em grupo, realizado em parceria com a prefeitura em 2003. Foi um evento lindo, com o teatro cheio. Outro muito marcante foi o concurso Bauru-Atlanta Competition no ano passado, nas modalidades piano e canto. Quando estávamos organizando esse evento, não imaginávamos que teria tanto sucesso e, para nossa felicidade, Atlanta deu continuidade e fez, em março desse ano, a segunda edição do Bauru-Atlanta, lá nos Estados Unidos. Assim como nossos músicos foram para lá, esperamos que na edição de 2010 os americanos venham para Bauru.

JC - O Bauru-Atlanta Competition 2010 está sendo preparado?

Rosa - Sim, já está no programa e estamos à procura de apoio. Também estamos com um grupo de música erudita formado por jovens bauruenses chamado ‘Divertimento’. Precisamos de ajuda para os dois projetos e quem se interessar por essa bela iniciativa artística, basta me procurar.

JC - Hoje, Bauru é a sua cidade?

Rosa - Sim, há dez anos estou aqui. Minha relação é, sobretudo, com a juventude que me rodeia e com os pais dos alunos que me acolheram muito bem. Me identifiquei muito com esses alunos porque também fui jovem, sonhei estar em um palco e tive a sorte de encontrar professores que me estimulassem a vida toda.

JC - Quais lugares do Brasil você teve a oportunidade de conhecer nesses 10 anos?

Rosa - Tenho viajado bastante com meus alunos para participarmos de concursos e eventos de piano. Gosto muito de viajar com eles e ver como crescem dentro da música. Já visitei Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, São Paulo capital e muitas cidades do interior do estado, João Pessoa, Porto Alegre, Santa Maria, Blumenau, enfim, muitos lugares lindos do Brasil.

JC - O que mais te chama a atenção quando viaja pelo Brasil?

Rosa - Durante essas viagens pude conhecer muitas praias brasileiras e lugares lindos. O que me chama a atenção é a variedade de paisagens e de natureza que há aqui.

JC - O que é a música para você?

Rosa - É minha companheira, meu pano de lágrimas, meu tudo. Eu me refugio na música. Desde que acordo, até a hora que vou dormir, eu a tenho na mente. A primeira coisa que faço é olhar o dia e tomar café olhando para as nuvens e para o céu. Nesse momento, em silêncio, a música já está na minha cabeça. Quando toco o piano, eu escuto a música como se não fosse eu a tocar, me envolvo no som e a sinto. Gosto de viver submersa na música.

JC – Qual é o seu estilo?

Rosa – Para interpretar, apenas o erudito. Mas escuto de tudo. Nenhuma música é melhor que a outra, o que acontece é que são feitas em condições diferentes e para espaços diferentes.

JC – O que você acha da música popular brasileira (MPB)?

Rosa - Muito linda e rica. Apaixonei-me pela bossa nova em Moscou com os brasileiros que conheci por lá.

JC – Você gosta mais de dar aulas ou de tocar?

Rosa - Hoje me considero uma professora pianista e não uma pianista professora. Amo dar aulas e me sinto tocando quando meus alunos tocam.

JC – Você tem outras paixões além da música?

Rosa – Sim, viagens. Conheço muitos países e sempre fui muito curiosa para saber sobre outras culturas e a história dos povos. Para conhecer e entender as pessoas, é preciso conhecer sua história e costumes. Foi assim quando cheguei ao Brasil. Para entender tantas festas e ‘tumultos’ eu estudei a história do país.

JC – Qual é a diferença entre o comportamento dos jovens brasileiros e dos cubanos?

Rosa - A disciplina. Sempre digo para meus alunos que precisamos fazer as coisas por inteiro e com seriedade e dedicação. Não gosto de duas palavras que usam aqui: ‘mais ou menos’ e ‘enrolar’. Mas me divirto com meus alunos. Costumo fazer provas orais para que eles não enrolem e não respondam mais ou menos. Eu percebo que nessa ‘arte de enrolar’, até no amor o brasileiro é mestre.

JC - E quanto ao regime político entre os dois países, você sentiu muita diferença?

Rosa - Não sou muito ligada à política. Acredito que a arte ultrapassa qualquer barreira e diferença. São países diferentes e lá, como aqui, tem quem goste do governo e quem não. Há diferenças no modo de pensar e acho que o cubano é mais alegre que o brasileiro e sempre digo que, para entender o povo cubano, é preciso conhecer o país.

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Perfil

• Nome: Rosa Maria Tolón

• Idade: 55 anos

• Local de Nascimento: Havana (Cuba)

• Filhos: Amílcar e a sobrinha Viviana

• Hobby: viajar

• Livro de cabeceira: livros de Gabriel Garcia Marques

• Estilo musical predileto: música erudita e popular romântica

• Para quem dá nota 10: para as pessoas que vivem o cotidiano com bom humor

• Para quem dá nota 0: para a programação cultural da região de Bauru