09 de julho de 2026
Nacional

Vai e vem na cotação do dólar tumultua vida das empresas


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São Paulo - No meio do ano passado, com o dólar cotado na casa do R$ 1,80, os exportadores não paravam de reclamar das dificuldades de vender seus produtos no Exterior. Aí veio a crise global, e em três meses o dólar chegou a R$ 2,50. Era a vez dos importadores reclamarem. Mais alguns meses e o dólar volta para a casa dos R$ 1,90.

Agora, todos reclamam: com tamanha volatilidade, não há planejamento financeiro que se sustente. “A oscilação é pior que o dólar alto, porque prejudica qualquer plano a longo prazo”, diz Marcel Malczewski, presidente da Bematech, fabricante de máquinas e equipamentos para automação comercial.

A empresa, que utiliza boa parte de componentes importados, viu seus custos baixarem nos últimos meses por causa da desvalorização do dólar. Mesmo assim, Malczewski diz preferir a estabilidade.

No ano passado, quando estava preparando o orçamento para 2009, a Bematech traçou três cenários para seus contratos. Um deles contava com o dólar a R$ 2,30, outro cenário previa a moeda americana a R$ 2,10, e o terceiro, a R$ 1,85. Mas era necessário fixar um valor para os contratos antes de encaminhar o orçamento para aprovação do conselho de administração. “Os três cenários e as oscilações do dólar tornaram a escolha muito complexa. Para simplificar, escolhemos um dos cenários e rasgamos os outros dois”, diz Malczewski.

O cenário escolhido previa o dólar a R$ 2,30. Em dezembro, o câmbio estava acima desses patamares - chegou a R$ 2,50. “Apostamos que haveria queda e depois, estabilização”, diz Malczewski. “O dólar faz diferença porque a maior parte dos insumos para fabricação dos equipamentos, como componentes de micromecânica, vêm de fora.”

Hoje, a venda de equipamentos para automação comercial responde por dois terços da receita da Bematech, que foi de R$ 318 milhões em 2008, 30% mais que em 2007. O restante do faturamento vem das vendas de softwares e de prestação de serviços, como manutenção.

Marcos Barros, diretor financeiro e de relações com investidores da Dixie Toga, gigante do mercado de embalagens, diz que o vai e vem do dólar contribui para deixar sua agenda mais tumultuada. As reuniões com clientes e viagens de negócios se tornaram mais freqüentes. “Como o câmbio inverteu, agora os clientes pedem desconto. Temos de estar constantemente precificando os produtos. E dá-lhe negociação”, diz.

A Dixie Toga é controlada pelo grupo americano Bemis Company e fabrica vários tipos de embalagens, de tubos de creme dental a potes de margarina. Quase 90% das matérias-primas que utiliza, como as resinas plásticas, são importadas. “O dólar instável gera incerteza, ficamos ao sabor do vento. Não tenho mais uma rotina.”

A Vitopel, que também atua no segmento de embalagens, precisou rever sua estratégia para este ano por causa da grande variação apresentada pelo câmbio. Entre janeiro e abril, a empresa havia triplicado suas vendas ao exterior, quando chegou a vender 2 mil toneladas por mês de filmes flexíveis, o carro-chefe da empresa.

Assistindo à queda do dólar, José Ricardo Roriz Coelho, presidente da empresa, reuniu seus principais executivos para traçar um plano B. “Reduzimos em 20% as exportações por causa do câmbio”, conta Coelho, que redirecionou parte da produção para atender ao mercado doméstico. A oscilação da moeda, segundo ele, faz que com que os planejamentos precisem ser refeitos mês a mês. Outra decisão foi selecionar a clientela.

O dia todo conectado, pelo computador ou celular. João Lian, presidente da Sumatra Comércio Exterior, não perde de vista a cotação do dólar. “Fico olhando a taxa de câmbio toda hora, assim como o preço do café no mercado internacional. É a primeira coisa que eu faço quando acordo”, diz ele, que possui uma trading de café que fatura R$ 200 milhões por ano, cinco fazendas produtoras em Minas Gerais e também administra um fundo de investimentos, o Nuevo Sumatra.