08 de julho de 2026
Articulistas

Futebol e violência

Nilson Costa
| Tempo de leitura: 2 min

Comparecer a um campo de futebol para torcer pelo time favorito está prestes a ser considerado crime de lesa-pátria, desde que prosperem as pretensões do Ministério Público, Polícia Militar e aval do Ministério dos Esportes.

Como se não bastassem as restrições já existentes à presença das torcidas organizadas nos confrontos das principais equipes do nosso futebol, desejam as autoridades que tais espetáculos contem apenas com a participação da “torcida única”, isto é, a do clube mandante.

Se aprovada tal proposta, teremos a morte anunciada do futebol brasileiro - o esporte mais popular do País. Jogadores se tornarão artistas apenas da platéia local. Sobrarão aplausos somente para seus ídolos e vaias em uníssono para os visitantes.

Dirão os favoráveis a essa idéia esdrúxula: “Não tem importância, o público poderá se contentar com as transmissões da TV”.

Mas não é a mesma coisa. Privar as torcidas uniformizadas do Noroeste, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos etc. de seu contato fora de casa com os craques do coração é manietá-los de forma detestável. Nem nas piores ditaduras chegou-se a tal cúmulo, a semelhante atentado ao direito de ir e vir.

Os amantes do futebol já vivem uma privação deplorável: as partidas principais são programadas para o final da noite. Diante da necessidade (?) de atender aos interesses da televisão, só após o esgotamento dos anúncios comerciais em shows e novelas é que árbitros e jogadores entram em campo para o apito inicial das partidas. E o telespectador ainda tem de aguentar os indefectíveis “minutos de silêncio”. Moral da história: já passa da meia-noite quando os juízes acionam seus apitos para o encerramento do espetáculo. Até deixar o estádio devidamente escoltado pela polícia, em busca de condução, o cidadão que trabalha terá sacrificado sua noite de sono.

Até quando irá imperar a vontade das emissoras de TV na programação dos jogos de futebol?

Ainda a propósito da tentativa de se criar a chamada “torcida única”, os melhores confrontos de nosso futebol, bons tempos aqueles em que Noroeste e Lusitana disputavam os derbys regionais, lotando de torcedores apaixonados os estádios de Vila América e Alfredo de Castilho. A rivalidade era braba, não faltavam xingamentos de parte a parte e gozações dos vencedores em cima dos vencidos do dia. Mas nada de agressões. Na segunda-feira a Casa Lusitana, do comendador Antônio Garcia, mentor máximo do alviceleste, abria as portas do seu estabelecimento, na esquina da Praça Rui Barbosa, e recebia de braços abertos a numerosa torcida do rival Noroeste para suas compras de secos e molhados, tecidos, equipamentos etc. E mesmo que o Lusitana tivesse sido derrotado no derby da véspera, nenhuma restrição de atenção e de crédito se levantava contra os fregueses noroestinos.

Tempos adoráveis aqueles...

O autor, Nilson Costa, é jornalista e ex-prefeito municipal