08 de julho de 2026
Internacional

Protesto leva milhares às ruas de Teerã

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Teerã - Às 22h, ruas, avenidas e praças estão vazias, no terceiro dia em que Teerã parece sob toque de recolher. Mas o silêncio é interrompido por gente nas janelas de diversos bairros da cidade, gritando “Deus é grande”. “Allah o Akbar”, no original, é usado como “Deus nos proteja” e foi um dos gritos de guerra na revolução que derrubou o xá do Irã em 1979.

A manifestação de dentro de casa aconteceu horas depois da marcha silenciosa da oposição, que reuniu milhares nas ruas de Teerã. “Deus é grande” e “Morte ao ditador” eram muito usados no início da Revolução”, disse à reportagem a professora de matemática Vida Ladan, 52 anos, durante a passeata. “Esta é a primeira vez em 30 anos que as massas protestam nas ruas e usam os mesmos slogans. Pode ser que não dê em nada, mas é meu dever de patriota”.

O evento não lembrou o clima festivo da campanha. O clima era de tensão no ar, apesar da presença policial ser bastante discreta. Durante todo o dia, circularam boatos de que a polícia abriria fogo.

“Achava que iria apanhar de novo”, diz o universitário Farhad, 25 anos, mostrando o braço enfaixado, depois de apanhar de milicianos na noite de sábado. “Mas isso é o que o governo quer, que tenhamos medo e fiquemos em casa.”

Contrastes

A manifestação dos partidários do opositor Mir Hossein Mousavi escancarou as diferenças entre os dois grupos enfrentados na política iraniana. O protesto da oposição não foi autorizado pelo Ministério do Interior, e o improviso foi geral. O candidato apareceu em cima de uma camionete branca e usou um modesto alto-falante. Seu rápido discurso foi ouvido por pouquíssimas pessoas. As mulheres eram quase metade dos presentes, na maioria jovens. Todas de véu, usavam maquiagem e deixavam parte do cabelo aparecer.

Na comemoração pela vitória de Ahmadinejad, no domingo à noite, o presidente falou de um grande palco, com bom sistema de som e avenidas fechadas e monitoradas pela polícia.

Dezenas de ônibus estacionados perto da praça haviam trazido manifestantes, que recebiam comida da organização. Pelo menos 3/4 eram homens. As poucas mulheres usavam o chador preto, cobrindo o corpo dos pés a cabeça. “Enquanto no Ocidente, vota ladrão, vota gay, vota gente suja, aqui vota gente limpa, honrada”, disse Ahmadinejad, no discurso de quase uma hora.

Mas, na passeata da oposição, também havia religiosos conservadores. Vestida de longo chador negro, a dona de casa Fatimi, 47 anos, mãe de quatro filhos, desmente à reportagem que as massas populares estejam totalmente com Ahmadinejad.“Pago o dobro pela carne este ano que há dois anos, pago quase o triplo pelo tomate, nós continuamos pobres”, reclamou. “Religião não tem a ver com política.”

A escolha do local da manifestação também mostrou as diferentes ambições de demarcar território. Ahmadinejad fez sua comemoração na praça Liderança, reduto da classe média local. Já Mousavi escolheu como parada final de sua marcha silenciosa a praça Liberdade, a maior da cidade, onde normalmente Ahmadinejad fazia seus grandes comícios.

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Lula defende a reeleição

Genebra - Na contramão dos líderes europeus, que aumentaram ontem a pressão sobre o governo iraniano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad e comparou os protestos oposicionistas à contrariedade de torcedores de futebol.

“Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”, disse Lula, em Genebra.

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Líder supremo ordena investigação

Teerã - Horas antes da manifestação, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo político e religioso do país, voltou atrás e ordenou uma investigação para apurar as denúncias de fraude. No sábado, Khamenei disse que a eleição foi limpa e pediu que todos apoiassem o presidente reeleito.

Os reformistas aliados a Mousavi vêem com desconfiança o fato de o governo ter divulgado a vitória de Ahmadinejad apenas duas horas depois do fechamento das urnas - um processo que costuma levar de dois a três dias no país.Com ou sem fraude, o apoio fiel do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, ao presidente Mahmoud Ahmadinejad se demonstrou na grande aliança desta eleição.

Segundo vários analistas ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato pelo clima de caça aos opositores vivido em Teerã, Khamenei, 69, vê qualquer tipo de abertura - seja na política externa ou nos costumes internos - como ameaça à própria teocracia que lidera desde 1989, quando substituiu o fundador da República Islâmica do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989).