Reorganizando meus arquivos, encontrei um documento deveras interessante que, no meu entender, merece ser divulgado. No salão nobre da Faculdade de Direito da ITE, numa memorável noite em 26 de outubro de 1966, recebíamos, alunos e professores, o eminente processualista italiano , o professor Giuseppe Bettiol.
A reunião seria solene e pensamos como poderíamos quebrar o ritual da mesma, marcando uma posição digna dos estudantes de direito naqueles conturbados dias do regime militar. Coube-me a coordenação do evento paralelo, sempre com a aquiescência do professor Antônio Eufrásio de Toledo. O tema escolhido foi o Hino do Estudante de Direito, tantas vezes cantado nas Arcadas, nos momentos de anormalidade.
Verteríamos o hino para o italiano. Procurei o vice-consul da Itália em Bauru, o senhor Ubaldo Chiappa, e este prontamente se dispôs a fazer a versão. Mimeografamos o texto e distribuímos aos alunos que adentravam ao salão para participar da solenidade, com um pequeno lembrete: “Colegas, este é o nosso hino vertido para o italiano em homenagem ao ao professor Bettiol. Quando um aluno subir ao palco e pedir para o auditório cantar, cante você também”.
A sessão solene começou. Professor Bettiol fez a sua palestra e, depois disso, coube-me, quebrando o protocolo para essas ocasiões, subir ao palco e conduzir a parte que nos cabia. E cantamos com plenos pulmões: “Studante di Diritto é um bravo/ e mai é stato schiavo/ Di tirano, questo no/ Per questo, chiediamo a Bettiol/ Que sia el nostro capo/ Della nostra gioventú/ Bettiol, Bettiol/ Facciamo rivolution/ Nostro capo é sempre Bettiol/ Nostra guida é il vostro cor.”
Depois dos aplausos pelo canto inesperado para ele, o professor Bettiol, emocionado, dirigiu-se até mim e me deu um forte abraço, com uma sugestão implícita: os estudantes ainda estão vivos. Depois da solenidade, na minha cópia do hino, ele e sua mulher, o professor Toledo e o professor Darci de Arruda Miranda, coordenador do evento, escreveram mensagens para o maestro do canto. Senti-me gratificado por ter participado desse momento, para mim histórico. Afinal, elegíamos Bettiol para a nossa revolução.
Processualista penal bastante conhecido no mundo jurídico, ele faleceu em 1982. Mas foi também político dos quadros da Democracia Cristã Italiana. Constituinte, foi deputado e senador no período entre 21 de julho de 1953 a 11 de junho de 1958. No gabinete do governo Antonio Segni, ocupou o Ministério da Educação Pública. Tempos memoráveis aqueles.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador do Opinião