09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O cavalo, a carroça e o carroceiro


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Domingo de manhã, frio, estava eu atravessando as Nações para pegar carona com Nuriah para irmos à reunião do Conselho de Cultura, quando fui interrompido pela poética visão de uma carroça, seu cavalo e o carroceiro. Parei para reverenciá-los e para vê-los passar. O carroceiro de barbas brancas foi embora feliz, levado pelo trotar do cavalo, levando meu aceno e emoção. Foi algo inusitado o veículo não poluente puxado pelo cavalo em uma avenida com seu asfalto e o viaduto da Rondon. Retornei, mentalmente, ao Ribeirão das Flores, brincadeiras de infância, um tempo sem violência.

Hoje, ao ler, na Tribuna do Leitor, a carta intitulada “Trabalho animal”, que quer acabar com os carroceiros, o fato voltou vívido e forte, confrontando o mesmo com “Falta de ética”, que fala do desrespeito dos nossos donos de veículos, me encontrei a refletir sobre o progresso. Fiquei a pensar em quem são realmente os “animais”.

Ah, que saudade dos paralelepípedos, das ruas sem buracos e da manutenção barata que produzia empregos. Saudade do reco-reco, da água escoando naturalmente e das enchentes apenas na Baixada do Silvino. Saudade da ética da alteridade então praticada, do Ponciano cuidando dos menores, de um tempo tranqüilo engolido pelo tempo do progresso.

Vai carroceiro, vai! Vai cuidar do seu trabalho em uma manhã de domingo com pouco tráfego nas Nações e toma cuidado com os que faltam à ética. Continue sempre a enfeitar as frias avenidas e a colocar poesia na alma das pessoas endurecidas pela lida diária.

Carlos Eduardo Martins