08 de julho de 2026
Geral

Jornalismo: curso terá que se adaptar

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Estudantes universitários, repórteres, editores, apresentadores de jornais de rádio e televisão. Todos os profissionais diplomados em jornalismo tiveram uma quinta-feira de discussões e incertezas sobre o futuro da carreira, por conta da queda da necessidade do diploma para o exercício da profissão. O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) julgou anteontem essa exigência inconstitucional. Com a medida, as faculdades de comunicação social terão de se adaptar e buscar alternativas para a nova realidade da profissão. As universidades ouvidas pelo Jornal da Cidade ponderam que a formação em jornalismo não irá acabar, mas é preciso uma reformulação do currículo do curso.

Anteontem, os ministros do STF decidiram que o decreto de 1969 que regulamentava a profissão de jornalista, baixado durante o regime militar, não foi recepcionado pela Constituição Federal (CF) de 1988 e que as suas exigências ferem a liberdade de imprensa e contrariam o direito à livre manifestação do pensamento.

Das 11 faculdades em Bauru, três mantêm cursos de jornalismo: a Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Paulista (Unip) e Universidade do Sagrado Coração (USC). Para o professor de radiojornalismo e membro do Conselho de Ensino e Pesquisa da Unesp, Antonio Francisco Magnoni, a decisão do Supremo foi equivocada.

“Os ministros têm uma referência antiga da previsão, do século 19, num contexto que era uma prática diletante quando um médico, ou um advogado escrevia para jornais em seus períodos livres”, observa. “Hoje, a informação é um serviço público. Há uma diversidade grande de informação e uma especialização crescente desses dados e isso exige novos saberes e uma boa formação”, destaca. Para ele, a medida vai concentrar na mão das empresas de comunicação a formação do profissional.

Mas ele pondera que o fim da exigência do diploma não significa a extinção do jornalista. “Nesse momento de mudanças de tecnologia, o leitor precisa de confiabilidade. E ela vem de profissionais e de veículos de qualidade”, frisa. Magnoni destaca que um impacto imediato será a queda da quantidade de cursos oferecidos e que as faculdades que mantiverem a formação em jornalismo deverão melhorar o currículo. “Temos que limpar a grade e tratar de novas tecnologias, a preocupação com o público e a função social da informação”, avalia.

Já Maria Cecília Martha Campos, coordenadora do curso de jornalismo da Unip, pondera que a decisão do STF não é surpresa. “Já havia discussões e sinais de que isso ocorreria. Particularmente, sou a favor de uma regulamentação da profissão, mas não pela restrição de quem tem ou não diploma participar da imprensa”, avalia.

Ela acredita que, pela própria prática da profissão, muitos veículos irão exigir a formação em jornalismo dos candidatos a vagas de trabalho. Campos sita como exemplo os profissionais de publicidade, que não possuem regulamentação específica, mas mantêm uma auto-regulação não oficial. “Acho que o jornalismo pode evoluir de uma forma que os próprios jornalistas criem um mecanismo que melhor atenda a essa demanda”, avalia.

A professora também pondera que os cursos superiores da profissão não vão acabar. “As faculdades de jornalismo continuarão sendo procuradas por pessoas que querem seguir carreira na área. É um aluno mais focado”, diz.

A coordenadora do curso de jornalismo da USC, Roseane Andrelo, avalia que o fim da exigência do diploma não vai causar prejuízos à carreira. “O impacto imediato foi um abalo psicológico emocional nos alunos que estão cursando a faculdade de jornalismo. Mas acredito que a decisão não vai mudar muito o que acontece hoje. Atualmente, existe uma série de profissões que não são regulamentadas e constam como as mais procuradas de alguns vestibulares, como administração de empresas, publicidade, ciências da computação”, enumera. “Além disso, não acredito que as empresas vão começar a contratar quem não tem formação na área”, pondera. “Em muitos países onde não há a obrigatoriedade do diploma e existe cursos de jornalismo”.

José Carlos Marques, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que ontem estava em Bauru, acredita que a medida pode ter efeito positivo. “Os bons cursos de formação serão mais procurados e valorizados. Os que abriram sem compromisso, não resistirão”, avalia. Ele acredita que a medida não terá efeito imediato. “Mas acredito que os profissionais com formação em jornalismo serão preferenciais. O bom jornalista não deve se preocupar, pois sempre terá lugar no mercado”, afirma.

Marques também destaca que a formação do profissional deverá sofrer mudanças. “Os cursos deverão ser fortalecidos, mais aplicados ao campo do jornalismo. A matriz curricular deve ser repensada”, diz.