10 de julho de 2026
Articulistas

Combate mundial à poliomielite

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Plínio Vicente da Silva, jornalista que foi chefe de reportagem do jornal O Estado de São Paulo, na Amazônia, em depoimento à revista Brasil Rotário, conta que, em 1945, enquanto o mundo convivia com as agruras da Segunda Grande Guerra, e os horrores das batalhas não chegavam à tranquilidade do sítio onde morava, em Mombuca, no vale do rio Mogi Guaçu, a calma de sua família foi sacudida quando a paralisia infantil o atacou. Esse era o nome da poliomielite, uma doença que, se não matasse, deixava grandes seqüelas. Diz: “Acordei chorando, numa manhã de dezembro, pouco antes do Natal. Com febre alta e dores da urina presa, já sem poder ficar em pé, fui levado ao médico, 16 km de estrada de terra mais adiante, percorrido a pé por minha mãe. Diagnóstico: paralisia infantil. Numa casa sem forro, de chão de terra batida, numa colônia de lavradores, a febre se foi e ficou a constatação: eu não mais voltaria a andar. Pelo menos não como uma criança normal.”

Naquela época, os estudos sobre essa doença ainda eram incipientes. Jonas Salk foi o primeiro a desenvolver uma vacina, que se tornou impraticável, mas o esforço continuou e resultou no sucesso alcançado por Albert Sabin com a vacina que hoje vem debelando esse mal. Enquanto isso, muitas vidas foram ceifadas e muitas pessoas ficaram parcial ou totalmente incapacitadas, principalmente entre a população mais humilde. Imagine a extensão desse drama entre os povos dos países africanos e do sudeste asiático, que vivem em extrema miséria.

O Rotary, através da Fundação Rotária, que é o seu braço de benemerência, há 30 anos vem lutando contra a poliomielite. Começou nas Filipinas, onde aplicou US$ 770 mil na imunização de crianças contra a paralisia infantil. As 1.500 vítimas anuais, antes das vacinações, foram reduzidas para 43, em 1983. A partir dessa experiência o Rotary se uniu à Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao Unicef, para um ambicioso projeto de erradicação mundial da poliomielite. Entre 1979 e 1982, somente a Fundação Rotária destinou US$ 2 milhões para seis países. Em 1985, o projeto rotário passou a ser chamado de “Pólio Plus”, tornando mais intensa a mobilização dos rotarianos com essa finalidade. Ao Brasil foram destinados US$ 6 milhões, para aquisição da vacina por cinco anos. A partir de 1994, nosso País foi considerado livre da poliomielite.

A mobilização conjunta Rotary, OMS e Unicef arrecadou US$ 1,87 bilhão, entre 1985 e 2001, sendo que só o Rotary contribuiu com US$ 550 milhões. Com esse esforço, apenas quatro países continuam endêmicos: Índia, Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Segundo a OMS, para erradicar a pólio do planeta até 2012 seriam necessários US$ 1,8 bilhão, ou seja, o mesmo gasto na fase anterior. Bill Gates, em visita à Índia, ficou sensibilizado com a seriedade e correção ética com que o projeto é executado e entrou na parceria, através da Fundação Bill e Melinda Gates, doando US$ 100 milhões, com o compromisso do Rotary de contribuir com outros US$ 100 milhões. Desafio que o Rotary aceitou. Entusiasmado com a parceria, Bill Gates resolveu doar mais US$ 255 milhões e o Rotary dobrou a sua parte para US$ 200 milhões. Assim, Fundação Bill e Melinda Gates e Rotary participarão com US$ 550 milhões.

2012 é a meta para a erradicação, o que não significa cruzar os braços. A vacinação deve ser um programa permanente e mobilizar toda a sociedade porque, se descuidar, a doença volta a ser mais agressiva.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru