08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Capricho ou dependência


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Quando se fala da juventude da década de 60, a presença do cigarro é indispensável, sendo imediatamente associada à rebeldia, ao sonho e à elegância. Por muito tempo, o ato de fumar foi considerado algo positivo, além de expressar a idéia de maturidade e liberdade. Porém, nas últimas décadas os estudos que comprovam os malefícios do fumo têm tornado o cigarro um vilão no que diz respeito à saúde.

Em conseqüência desse processo, no último dia 7 de maio o governador José Serra sancionou a Lei Estadual que proíbe o fumo em locais fechados de uso coletivo. Muita discussão está sendo gerada já que donos de bares, restaurantes e indústrias de cigarro sentem-se lesados com a nova lei. Juntamente a eles, encontram-se os fumantes, que dizem ter seus direitos de liberdade feridos.

O problema é que, mesmo com a implantação dos chamados “fumódromos”, nós, fumantes passivos, acabamos por ter nossa saúde afetada pelas mesmas doenças dos que fumam. Além disso, nenhum direito é absoluto, termina-se o de um exatamente onde começa o de outro.

Por outro lado, do mesmo modo que o Estado deve assegurar saúde e bem-estar a cada cidadão, é seu dever olhar para os dois lados da moeda, conciliando os direitos e deveres de todos, sem excluir uma parcela, mesmo que essa seja minoria. O correto seria os donos de estabelecimentos terem o direito de optar por público fumante ou não-fumante. Lembrando ainda que, com a nova lei, muitos deixarão de sair para se reunirem em casa, agravando o índice de desemprego que assola o país.

Na realidade, a complexidade da questão é maior do que parece. O impasse não se resolve apenas com a criação de locais voltados para o público que fuma, pois ainda faltam políticas públicas visando a uma fiscalização eficiente e ao tratamento dos que querem largar o vício.

Infelizmente, a corruptibilidade da sociedade brasileira tornou utópica a idéia de que a lei funcionará como o previsto. Será quase que impossível extinguir o fumo em locais como bares e boates, trazendo como conseqüência o famoso “jeitinho brasileiro” de se resolverem as coisas. Além de que, cabe ao governo disponibilizar remédios gratuitos à população, uma vez que o tratamento de dependência química é demorado. Não se trata de patrimonialismo, já que as pessoas que têm renda suficiente para pagar pelo tratamento não deveriam ser beneficiadas, mas sim do mínimo necessário para que a lei não se torne pura demagogia.

Claro que nosso governador teve a melhor das intenções em tentar proteger a saúde e até mesmo o meio ambiente, mas, acreditar nas expectativas da lei é não querer enxergar o que está à vista de todos: se o núcleo do problema encontra-se nos malefícios causados pelo ar contaminado de fumaça, o assunto não se restringe à questão do fumo. Engloba também a negra fumaça que sai de caminhões e de fábricas, além de outras dezenas de poluidores espalhados pelo Estado.

Vale relembrar que a poluição não é o único problema a ser resolvido, há outros da mesma ou superior gravidade, como os ligados à educação, à fome e até mesmo à ética na política. Excluir uma minoria demonstra inabilidade do Estado em harmonizar pensamentos e hábitos antagônicos, mesmo porque fumar é uma dependência e não um capricho como se pensava 50 anos atrás.

Letícia Tobias - 17 anos - estudante