08 de julho de 2026
Internacional

Irã: Khamenei descarta ceder à pressão

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Teerã - O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, reiterou ontem a rejeição do governo iraniano a qualquer contestação da validade do pleito que reelegeu o presidente ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad.

A declaração, um dia após o Conselho dos Guardiães, máxima instância constitucional do país, atestar a lisura da eleição, sela de vez a possibilidade de rever o resultado. A oposição, liderada pelo candidato derrotado Mir Hossein Mousavi, alega fraude e quer novo pleito.

“Tenho insistido, e continuarei insistindo, na aplicação da lei. Não tomaremos um passo além da lei. Nem o regime nem a população cederão à pressão na base da força”, disse o aiatolá Khamenei, máxima autoridade política e religiosa iraniana, em comunicado na TV estatal.

Desde a última segunda não são registradas grandes manifestações oposicionistas pelo país. Protestos vinham sendo realizados quase que diariamente desde o dia 13, quando foi anunciada a vitória de Ahmadinejad, com 62,7% dos votos, contra 33% de Mousavi.

Manifestação

Um princípio de manifestação de cerca de 200 pessoas ontem em uma praça próxima ao Parlamento iraniano foi rapidamente dispersado com tiros para o alto e bombas de gás lacrimogêneo pelas forças de segurança e pelos milicianos basiji, de acordo com relatos. O levante é considerado o maior no Irã desde a Revolução Islâmica, em 1979, que levou ao poder o atual regime teocrático. Segundo a imprensa oficial, 20 pessoas já morreram desde o início dos protestos.

Em outro indício do arrefecimento da tensão no país, o também derrotado candidato Mohsen Rezai, conservador, retirou suas contestações à lisura do pleito.

Já a mulher de Mousavi, Zahra Rahnavard, de ativa participação na campanha, exortou os iranianos a manter as manifestações. Ela disse que o governo não pode lidar com a oposição “como se houvesse lei marcial’’.

O Ministério do Interior disse ainda que analisa rebaixar as relações diplomáticas com o Reino Unido, a quem acusa de intromissão nos assuntos internos iranianos. Teerã diz ter detido várias pessoas com passaporte britânico nos últimos dias.

Recontagem

A televisão estatal iraniana anunciou ontem que uma recontagem parcial dos votos na contestada eleição presidencial confirmou o resultado.

A emissora em língua inglesa Press TV anunciou em manchete: “Irã: recontagem parcial dos votos confirma resultado da eleição”. A emissora não deu maiores detalhes.

O mais alto órgão legislativo do Irã, o Conselho dos Guardiães, tinha dito anteriormente que estaria disposto a recontar 10 por cento dos votos, mas não ficou claro se estava se referindo a essa recontagem.

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Morte de iraniana pode estar ligada a terrorista, diz governo

Teerã - As autoridades iranianas afirmaram ontem que os atiradores que mataram a iraniana Neda Agha-Soltan durante um protesto da oposição podem tê-la confundido com a irmã de um terrorista do país, informa a agência Irna.

A morte de Neda com um tiro no peito foi filmada por um outro manifestante e divulgada ao mundo pela internet. As imagens são fortes e se transformaram em símbolo da opressão das forças de segurança aos protestos, que ocupam há dez dias as ruas da capital Teerã.

As autoridades iranianas rejeitam a denúncia de que milicianos Basij, ligados à Guarda Revolucionária, foram os responsáveis pela morte da mulher e culpam “os grupos que querem criar uma divisão na nação”.

Segundo o governo, a morte de Neda, considerada mártir da liberdade política no regime teocrático iraniano, foi planejada para “acusar o Irã de lidar de maneira violenta com a oposição”.

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Triunfo real de Ahmadinejad não está descartado

Nova York - Apesar da revolta oposicionista, há apenas indícios, não provas, de que a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad foi fraudulenta -mesmo que alguns desses indícios sejam fortes, como o comparecimento maior do que 100% em alguns distritos.

“Esperamos que fatos novos surjam nas próximas semanas, incluindo evidências críveis de que a eleição foi fraudulenta. Mas até lá devemos ter máxima cautela com os relatos sobre o Irã’’, escreveu na revista “Time’’ Robert Baer, um ex-agente da CIA no Oriente Médio.

Segundo Baer, a mídia européia errou ao concentrar sua cobertura pré-eleitoral nos bairros de classe média alta de Teerã, onde vive, segundo ele, uma população “que ama música americana e está mais propensa a falar com jornalistas ocidentais”’. Com a atenção focada nos setores liberais, não teria sido dada a devida atenção aos iranianos pobres e dos meios rurais, que formam a base eleitoral do presidente.

“A verdade é que Ahmadinejad talvez seja o presidente que os iranianos querem, e talvez tenhamos que conviver com um Irã em sintonia com o gosto deles, e não com o nosso”, escreveu Baer.

Autores de estudo publicado três semanas antes do pleito de 12 junho concordam com as observações. Pesquisa de Ken Ballen e Patrick Doherty, publicadas nos jornais “Washington Post”’ e “Guardian”. conduzida a pedido de dois institutos americanos, previu vitória de Ahmadinejad com o dobro de votos do reformista Mir Hosein Mousavi - mais até do que os 62,7% contra 33% divulgados oficialmente.