08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Descaso e intolerância


| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas semanas, os jornais de grande circulação noticiaram episódios da greve nas universidades paulistas - USP, Unicamp e Unesp - dando destaque, principalmente, à presença de tropas de choque no câmpus uspiano.

Acredito que, na qualidade de professora aposentada de uma dessas três universidades, disponha de alguns subsídios para avaliar, em parte pelo menos, essas ocorrências.

Está havendo uma série de equívocos em toda essa história. Em primeiro lugar, é preciso dizer da recorrência desses episódios anualmente, sempre nas franjas de uma negociação para aumento salarial. Sai ano, entra ano, os meses de maio e/ou junho são marcados por greves, badernas, confusões. E lá se vai o cronograma escolar por água abaixo. Alunos sem aula e participando do movimento, professores insuflando alunos a tomar parte num assunto que não lhe diz respeito e, por aí vai...

Na verdade, ao que me parece, o assunto mestre nesse imbróglio todo é o reajuste salarial, as outras reivindicações vêm por acréscimo. Em assim sendo, aluno deve estar excluído desse processo.

Pois, muito bem. Acontece que os senhores reitores, como soldados mandados do governador, tornam-se inflexíveis e até despóticos em relação à folha de pagamento. Não vou ficar aqui, como parte integrante dessa mesma folha, mendigando por um aumento razoável e condizente. E não vou reivindicar porque é público e notório que, neste país, a educação nunca foi considerada como assunto prioritário e, portanto, não será da noite para o dia que nossas autoridades saberão valorizar o tema. Na verdade, quando na ativa, participei de muitos movimentos pela melhoria salarial e foi em vão. Os aumentos sempre pífios nunca nos guindaram a uma posição de igualdade com as universidades federais. Cansei!

A par disso tudo, como já disse, reina um total descaso de alguns reitores que, em vez de sentarem-se à mesa de negociação, preferem chamar a polícia para, num pretenso estalar de dedos, pôr fim à confusão. Ao mesmo tempo, docentes oportunistas (e como existem!) aliciam alunos, que se tornam presas às vezes fáceis, para dar vazão às suas idéias extremistas. E, em meio ao caos, não perdem a oportunidade para “esquerdizar” o movimento. Tudo é ensejo para terçarem armas em torno de uma ideologia fracassada e incapaz de salvaguardar o mundo. Assim, a frase de Gramsci, em destaque numa parede de um local qualquer da USP, e que aparecia sobranceira em algumas tomadas televisivas, pareceu-me uma faca de dois gumes: “A história ensina, mas não tem alunos”.

Enquanto este país tratar os assuntos educacionais com tamanho descaso, continuaremos engatinhando como crianças de músculos frágeis, incapazes de erguerem-se com as próprias pernas. Há cerca de quatro décadas, Lauro de Oliveira Lima já falava da importância de investir-se em educação. Para ele, um grande cientista pode ter o mesmo valor que uma gigantesca hidrelétrica. O que ele dizia há décadas, é válido hoje: “Se fossem peneirados os investimentos ociosos não prioritários (para não falar da corrupção administrativa), verificar-se-ia que o que falta não são recursos, mas uma política de desenvolvimento, equitativa na distribuição e escolha de prioridades”. Como se vê, ainda não aprendemos nada.

E como não bastasse o descaso, temos de suportar a intolerância. Educação não é caso de polícia. Entendo quando Dalmo Dallari afirma que quando a polícia cumpre uma ordem judicial para proteger um bem público não é uma polícia de ditadura. Mas, a exemplo desses grupelhos grevistas que querem passar por cima do direito dos outros, não caberia à reitora da USP encontrar uma forma menos draconiana para resolver a situação?

Maria da Glória De Rosa - professora-doutora aposentada da Unesp - câmpus de Marília