09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A vida pede um pouco mais de calma...


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É incrível como podemos observar algumas particularidades, alguns rituais, gestos e, aos poucos, vamos nos tornando cúmplices da vida de pessoas, que sequer sabem de nossa existência. Estou falando daquela pessoa que pega o mesmo ônibus com você todos os dias, você sabe qual ponto ela vai entrar e qual ela vai descer. Só de olhá-la você já sabe se está contente, ou triste, mas entre vocês não há nenhum tipo de contato, não se falam, não sabem os nomes e, provavelmente, a pessoa olhada nem imagina que está sendo observada. Estou falando daquele senhor de cabelos brancos que toda tarde tomava cerveja na área externa de sua casa, na Rua Rio Branco, ao lado do antigo BAC. Toda vez que passava em frente sua casa o observava, podia sentir o gosto da cerveja, com um pouco de colarinho no copo, e a garrafa suada. A imagem dele era a de um grande apreciador da vida, que a admirava todos os dias.

E eu, dentro do carro, correndo, morrendo de calor, e ele sem pressa, com a expressão do dever cumprido, simplesmente admirando, com um semblante de felicidade, sem preocupação, fazendo todos os loucos que passavam pela vida dele correndo, sentir inveja, ter vontade de parar e dividir aquela cerveja. Porém há muito não o vejo, na primeira vez que passei por lá e não o vi fiquei preocupada, será que está doente? Alguns dias depois, a casa tinha algumas roupas à venda. Será que ele abriu uma loja? Mas não, ele não morava mais lá, o tempo foi passando e num outro dia vi a casa se desfazendo, ela estava sendo demolida, e o rosto dele me veio, fiquei me questionando; onde estaria aquele senhor, que já me era tão conhecido??? Será que a demolição do BAC lhe doeu muito? Ou será que ele fez um bom negócio, afinal, ele sempre me pareceu muito esperto! Terá mudado para um lugar onde a vida não tenha pressa? Preocupa-me em saber como ele esta; afinal, o conheço há anos. Só espero que esteja feliz da vida, onde estiver, como sempre o vi.

Élida Yonamine