08 de julho de 2026
Bairros

Equilíbrio em duas rodas

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

O que há até pouco tempo era apenas desejo de criança e muito utilizada para a prática esportiva, nos últimos anos tem se tornado o principal meio de transporte de muitos bauruenses que residem nos bairros periféricos da cidade. Para constatar o fato, basta “madrugar” na rua. Por volta das 6h, os trabalhadores ciclistas surgem de todos os lugares, se deslocam de um bairro ao outro, percorrem distâncias enormes para chegar ao trabalho.

Luiz Paulo Tales Silva, residente no Jardim Godoy, leva 25 minutos todos os dias para chegar ao trabalho no Núcleo Mary Dota. De acordo com ele, se fosse trabalhar a pé levaria cerca de uma hora para fazer o percurso. Se utilizasse o transporte coletivo, precisaria transitar por quatro linhas para ir e voltar do trabalho, o que pesaria no orçamento da família.

“O problema não está na bicicleta, mas na falta de respeito com o ciclista. Parece que é mais fácil passar por cima do que desviar ou frear o veículo”, reclama. Assim como ele, grande parte dos ciclistas ou já sofreu um acidente, ou eles conhecem alguém que se envolveu em um.

Silva conta que estava indo ao hospital levar roupas para um familiar que estava internado quando foi fechado por um veículo na região central da cidade. “Me machuquei um pouco, mas o prejuízo maior foi com a bicicleta.

Só neste ano foram registrados 57 acidentes envolvendo ciclistas na cidade até a primeira quinzena de junho. Dois adolescentes, dos três que estavam na mesma bicicleta, morreram. O acidente ocorreu em um declive da rua Francisco Alves, no sentido Bela Vista/favela São Manoel. O menino que sobreviveu contou que eles perderam o controle da bicicleta depois de tentar desviar de um carro que trafegava pela via no momento do acidente.

Nestor Peres Bolório é outro que sempre utilizou da bicicleta para trabalhar. Ele também já foi atropelado enquanto se dirigia ao trabalho. “Tive que acionar o Juizado de Pequenas Causas para poder receber o dinheiro e consertar a bicicleta”, lembra. De acordo com ele, há lugares na cidade onde os motoristas não respeitam quem está de bicicleta. Para não ser mais pego de surpresa nesses locais, ele prefere trafegar pela calçada.

Se andar de bicicleta pelas ruas de Bauru tem ficado complicado e em muitas regiões perigoso, o que dizer, então, de quem utiliza o acostamento das rodovias para chegar ao trabalho. Sérgio Dutra, morador do Parque Alto Paraíso, percorre todo dia cerca de quatro quilômetros pela rodovia Cezário José de Castilho - uma das mais movimentadas e por isso perigosa - que corta Bauru. “Não tenho outra opção, trabalho perto da balança dos caminhões. O único caminho é esse”, explica.

Na contramão

Para evitar ser pego de surpresa por um veículo, os ciclistas de Bauru tem optado por circular pelas ruas e avenidas tanto na área central quanto nos bairros periféricos pela contramão de direção. É fácil encontrar os ciclistas se deslocando na direção contrária ao fluxo de veículos da via.

Valdinei Mota Pereira relata que, dessa forma, tem tempo de desviar de algum motorista que venha em sua direção em alta velocidade. “É o único jeito, eu sei que é errado, mas para quem precisa da bicicleta para ganhar o pão não dá para arriscar”, explica.

O comandante do Pelotão de Trânsito de Bauru, tenente Jorge Luis Dias, acredita que alguns itens de segurança nas bicicletas diminuiriam muito o número de ocorrências.

“Se não é possível utilizar o capacete, as faixas refletivas ajudam em muito a aumentar a visibilidade do motorista em relação ao ciclista”, orienta Dias.

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Caminho alternativo

Quem utiliza a bicicleta para trabalhar tem notado como a locomoção com o veículo tem ficado complicada. Sendo assim, muitos têm optado por rotas alternativas para chegar ao destino desejado. Os caminhos abertos por pedestres em terrenos sem construção tem sido transformados em ciclovias alternativas.

Sem a concorrência desleal dos veículos e a possibilidade de encurtar o caminho, os ciclistas não tem se importado de circular por trajetos complicados. A recomendação das autoridades de trânsito de Bauru é de que evitem as vias de intenso fluxo de veículo, mas que não se arrisque por caminhos desertos.

“Optar por vias secundárias é mais seguro tanto na questão de não ser agredido ou assaltado quanto de não se envolver em acidentes”, comenta o comandante do Pelotão de Trânsito de Bauru, tenente Jorge Luis Dias.

Ele lembra que o ideal era que a cidade tivesse diversas ciclovias que oferecessem várias opções de acesso para os ciclistas, mas as ciclovias ainda não são prioridade em Bauru. A única que serve como acesso para os trabalhadores está localizada às margens da vicinal Horácio Frederico Pyles, conhecida como prolongamento da avenida Rodrigues Alves, o trecho que liga o Jardim Octávio Rasi ao Distrito Industrial 1 está perdido em meio ao mato alto. As demais ciclovias da cidade, três no total, são utilizadas mais para os ciclistas que fazem exercícios físicos sobre duas rodas.