10 de julho de 2026
Geral

‘Seo’ Tepedino deixa a Rio Branco, mas segue apreciando sua cerveja

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Durante 26 anos, o senhor Ignácio Athayde Tepedino repetiu um hábito que o tornou conhecido em toda a cidade - na verdade, ele conta que sua fama ultrapassou as fronteiras do Estado. Todos os dias, após chegar do trabalho, levava uma garrafa de cerveja à varanda de sua casa, na quadra 21 da rua Rio Branco, e permanecia horas apreciando sua “loira gelada”, conversado com amigos e pessoas que passavam pelo local.

Há um ano, o sumiço do antigo funcionário dos Correios intrigava muita gente. Mas o Jornal da Cidade o encontrou. Ele deixou sua famosa esquina, porém, mantém o hábito de bebericar sua cervejinha. Agora, ao invés da varanda, ele relaxa e reúne seus amigos em sua nova residência, no Jardim América.

Em carta publicada na Tribuna do Leitor da edição de anteontem, Élida Yonamine escreveu que, sempre que passava pela rua Rio Branco, se admirava com o senhor de cabelos brancos que todos os dias apreciava uma cerveja bem gelada enquanto observava o movimento. Como ela deixou de vê-lo no “terraço”, ficou até preocupada e, em sua mensagem, perguntava o destino de Tepedino, sem mencionar o seu nome.

Pois a verdade é que ele continua tomando sua cervejinha gelada, mas agora em novo endereço. “Fui atropelado pelo progresso e tive que vender a casa que tanto gostava”, conta. Tepedino - economista aposentado que trabalhou 56 anos nos Correios - recebeu a reportagem em sua nova residência, no Jardim América, bem no horário de seu ritual. E não teve dúvidas: enquanto explicava os motivos de sua mudança, abriu uma garrafa de sua marca favorita e pôs-se a beber em uma mesa à beira da piscina - seu novo “terraço”.

“Eu fui o primeiro a construir na quadra 21 da rua Rio Branco, em 1963, quando tinha 26 anos. Com o passar dos anos ela sofreu modificações, reformas”, conta. O “terraço” foi construído em 1982, quando Tepedino iniciou o ritual que o tornou conhecido na cidade.

“Cervejeiro”

Aliás, ele garante que sempre foi “cervejeiro”. “É um hábito da juventude. Sempre gostei da bebida preferida dos brasileiros. Em Bauru, costumava freqüentar o bar Cristal, o Francano e a Lalai, para tomar uma cervejinha”, diz. Mas ele faz questão de ressaltar que nunca houve excesso. “Se a cerveja for dosada, não faz mal para ninguém”, diz. E garante que curtiu muito esse período. “Quando era solteiro, tinha muita festa da cerveja em Bauru e na região. Minha turma de amigos ia a todas. Era um ambiente de cervejeiros”, lembra. “A minha mocidade foi muito bem aproveitada. Sinto saudade, assim como sinto falta da casa da Rio Branco”, conta

Depois de casado, passou a ficar mais em seu lar. “E aí, como não saía muito, comecei a beber em casa. E, para mim, chegar do trabalho, debruçar no parapeito, tomar cerveja e conversar com os conhecidos era uma higiene mental”, relata. E o ritual, além de torná-lo conhecido, trouxe muitos amigos. “Nesses 50 minutos que estamos conversando, se estivéssemos lá, já teria cumprimentado umas 100 pessoas”, calcula.

Os amigos sempre fizeram questão de presentear o “cervejeiro”, que mantém um armário cheio de copos e suportes térmicos para garrafas de cerveja. Com muito bom humor, ele conta que se tornou até ponto de referência. “Para dizer a localização de um estabelecimento na Rio Branco, o pessoal falava: ‘olha, fica umas duas quadras para cima do tio da cerveja’”, conta dando risadas.

Até fora de Bauru Tepedino ficou conhecido. “Sempre viajei muito com a minha família. E, quando chegava nos lugares e contava que era de Bauru, sempre havia alguém que já tinha passado pela cidade e falava sobre o ‘tio da cerveja’. Já encontrei pessoas que me conheciam na Bahia e em Santa Catarina, por exemplo”, diz.

____________________

Mudança

Depois de mais de 26 anos observando a vida passar na rua Rio Branco, Tepedino se rendeu às transformações que chegaram ao seu bairro. “A evolução segue e o progresso chega. O meu bairro, que era residencial, se transformou em comercial. O trânsito de veículos passou a ser intenso. A gente não podia ver televisão ou dormir. E isso vai tirando o sossego”, relata.

Apesar dos aborrecimentos, ele também avalia o ponto positivo da metamorfose do local. Com a chegada de novos empreendimentos, seu imóvel se valorizou. “Consegui vendê-lo bem e fiz bom negócio comprando essa casa”, conta. “A única coisa que perdi foi o meu terraço e o contato mais direto com os amigos”, lamenta.

Perguntado se a venda do prédio do Bauru Atlético Clube (BAC) - que foi demolido para a construção de um supermercado - foi o motivo de sua mudança, Tepedino garante que não. “A única coisa que eu lamentei é que, como a prefeitura era o maior credor do clube na época, poderia ter adquirido o imóvel e implantado lá uma área de lazer e esporte para famílias de baixa renda. Bauru perdeu uma oportunidade muito grande de ter feito um bem social no lugar”, pondera.

No último dia 20, completou um ano que Tepedino e sua esposa, Maria, residem em novo endereço. E o casal faz questão de receber os amigos da época da rua Rio Branco. “Quem quiser, pode vir visitar. A cervejinha está sempre gelada”, garante.