Qual foi a moeda anterior ao real, que hoje completa 15 anos? De primeira, as pessoas nascidas nos anos 90 dificilmente vão se lembrar. Mesmo quem é da década de 80 tem dificuldade. O JC foi às ruas e nenhum dos quatro entrevistados, com idade entre 20 e 40 anos, conseguiu lembrar-se do cruzeiro real, a moeda anterior à atual.
E não é só o nome que foi esquecido. A maioria das pessoas tem apenas lembranças vagas de como era a economia antes da estabilidade trazida com o Plano Real, implantado em 1 de julho de 1994.
“Minha lembrança é muito vaga. Tinha apenas 12 anos quando a moeda mudou. Lembro que o dinheiro tinha vários zeros, que depois foram cortados. Também lembro que mudava bastante de nome a moeda”, conta Michele Shiraiwa, de 29 anos, encarregada financeira de uma loja.
A vendedora Rosalinda Cardoso da Silva, 37 anos, também diz não lembrar-se muito das moedas anteriores, mas acredita que havia mais dinheiro em circulação antes. “Parece que o dinheiro tinha mais quantidade. Esse agora (real) parece que some. O tempo passa e a gente esquece como era”, diz.
Mabe Santos, 35 anos, caixa de uma loja no Centro da cidade, tem a sua teoria a respeito. “Não lembro de outras moedas. Mas você sabe como é: quem não é visto, não é lembrado. Precisaria ver uma nota antiga para lembrar. Agora já estamos acostumados com essa (real).”
Os mais velhos, no entanto, não esquecem os apuros da inflação nas alturas e as mudanças provadas pelo real. “Foi com a implantação do real que a economia começou a se estabilizar. Não teve mais sobressaltos como antes quando a economia era difícil de controlar. Tanto é verdade que o real permaneceu”, afirma o aposentado Edson Moreti, 56 anos.
Confusão
Mas há quem se lembre inclusive do período inicial da mudança e se divirta com as confusões que a troca de moeda causou.
“Eu estava em Munique, na Alemanha, na época. Em uma das andanças pela cidade entrei em uma casa de câmbio para trocar umas moedas de dólar pelo marco alemão. O valor era um dólar por um e meio marco. Em dado momento, tentei fazer uma graça com a funcionária da loja de câmbio mostrando a ela uma nota de real. Fiz uma comparação de que aquele 1 real valeria 1 dólar. A mulher só faltou me expulsar de lá, pois não acreditou que aquela nota valeria mais que o seu marco alemão”, conta um profissional liberal que preferiu ficar no anonimato.
O Plano Real
O programa brasileiro de estabilização econômica, chamado de Plano Real é considerado o mais bem-sucedido de todos os projetos lançados nas últimas décadas para combater casos de inflação crônica. Combinaram-se condições políticas, históricas e econômicas para permitir que o governo brasileiro lançasse, ainda no final de 1993, as bases de um programa de longo prazo.
Organizado em etapas, o plano resultaria no fim de quase três décadas de inflação elevada e na substituição da antiga moeda pelo real, a partir de 1 de julho de 1994.
Os mentores do Plano Real foram os economistas André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e Pérsio Arida.
A implantação da maior parte do plano se deu durante o período de Fernando Henrique Cardoso (FHC) à frente do Ministério da Fazenda, no governo de Itamar Franco. No mesmo ano do real, 1994, FHC, venceu a eleição para a presidência da República, cargo que ocupou até 2002, após a reeleição.
A partir da implantação do Plano Real, a inflação foi dominada sem congelamentos de preços, confisco de depósitos bancários ou outros artificialismos da heterodoxia econômica, que assustaram o País em outras ocasiões.
Nestes últimos 15 anos, a inflação acumulada no Brasil foi de 244%, ou 9% dos 2.477% registrados apenas no ano de 1993. De congelamento de preços ao confisco da poupança, o brasileiro viu naufragar seis planos econômicos de 1986 a 1993.
Em conseqüência do fim da inflação, a economia brasileira voltou a crescer rapidamente, obrigando o Ministério da Fazenda a optar por uma política de restrição à expansão da moeda e do crédito, de forma a garantir que, na etapa seguinte, o Brasil possa registrar taxas de crescimento econômico auto-sustentáveis, viabilizando a retomada do crescimento com distribuição da renda. É a busca do momento - crescimento sem a volta da inflação.
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Real se consolida como estabilizador da economia
A economia brasileira foi um verdadeiro caos por oito anos, de 1986 a 1993. Com a inflação nas alturas e o dinheiro perdendo o valor rapidamente, quatro moedas diferentes e seis planos econômicos tentaram salvar as finanças do País no período. No entanto, a solução veio em 1994 com a implantação do real. O Plano Real, que completa 15 anos hoje, foi o responsável por estabilizar a economia nacional.
“Os resultados da economia hoje, inclusive o fato do Brasil ser apontado entre os quatro países emergentes junto com a Rússia, Índia e China, se devem à estabilidade de um plano que foi adotado em 1994. O Plano Real se propôs a combater o conceito inflacionário do Brasil ao ponto de chegarmos, depois de 15 anos, a uma economia muito mais consistente e confiável que economias antigamente tidas como desenvolvidas”, diz o economista Wagner Ismanhoto.
Tendo como objetivo a instituição de uma nova moeda, a busca pela estabilização sem o congelamento dos preços e a tentativa do controle dos gastos públicos, o plano se consolidou aos poucos.
“Eu acho que o Brasil tentou implantar muitos planos e em todos havia sempre um componente que era o susto. A grande vantagem do real, quando ele foi implementado em 1994, foi não ter dado um susto nas pessoas. Nós começamos o plano sabíamos que íamos chegar, seis meses depois, com a noção exata de quanto valeria a moeda. Foi um plano pensado e implantado em etapas, que contou com a credibilidade das pessoas e das empresas”, pondera Ismanhoto.
O principal avanço econômico do Plano Real foi o controle da inflação desenfreada, que chegou a ultrapassar os 1.000% ao ano em 1993. “A grande conquista do Plano Real foi o combate à inflação. Ela é um sinal que a economia manda de que as coisas não estão em equilíbrio. Ela limitava o crescimento do País e as pessoas perdiam o referencial dos preços”, explica o economista.
Conquistar a confiança dos brasileiros foi um desafio para a nova moeda uma vez que a população estava cansada de tantas mudanças. Agora, 15 anos depois de seu lançamento, o Plano Real é modelo para outras nações.
“Acredito que muitos países, inclusive, têm estudado a implementação do plano real para pôr em prática em suas economias também. O real é um plano muito técnico, que respeitou os mecanismos do mercado convencional, ou seja, não se tentou reinventar a roda e, por isso, foi bem-sucedido”, finaliza Ismanhoto.