08 de julho de 2026
Articulistas

O sucesso pode matar

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Os seres humanos podem prosperar, enriquecer e perder tudo. As empresas são organizações humanas, logo, podem se tornar grandes, poderosas e entrar em declínio e falir. Os seres humanos podem, também, prosperar, entrar em decadência e reerguer-se. As empresas, como organizações humanas, também podem, depois de grande sucesso, entrar em declínio e recuperar-se. É o que, em psicologia social, se chama de entropia negativa ou capacidade de sobreviver por adaptação às restrições do ambiente. Foi com essa capacidade que muitos judeus sobreviveram às agruras dos campos de concentração e é assim que muitas empresas ressurgem dos períodos de crises. Mas, da mesma maneira como milhões de judeus pereceram no holocausto, milhares de empresas estão fechando ou lutando para sobreviver à crise.

Jim Collins, professor americano que se tornou famoso após o sucesso de seus dois livros: “Feitas para Durar” e “Empresas Feitas para Vencer”, em entrevista à Exame, comenta seu novo livro, ainda sem tradução em português. Pesquisando grandes corporações, que ele mesmo citara como exemplo de sucesso em seus livros, e que não resistiram à crise ou estão em fase de recuperação, ele tira algumas conclusões sobre o que as levou ao declínio: 1) Excesso de confiança originado pelo sucesso - empresas poderosas e bem-sucedidas correm o risco de se tornar arrogantes demais; 2) Busca indisciplinada pelo crescimento - companhias cegas pelo próprio sucesso buscam crescer a qualquer custo; 3) Negação do risco - quando surgem os sinais de que alguma coisa não vai bem, as empresas em declínio simplesmente os ignoram; 4) Corrida pela salvação - quando a crise pela qual a empresa passa pode ser percebida por todos, ela busca uma “bala de prata” que possa salvá-la da ruína; 5) Irrelevância ou morte -quanto mais tempo permanece em agonia mais difícil se torna a recuperação. Nesta altura, seu vigor financeiro acabou, suas principais lideranças já debandaram e não há nenhuma estratégia de recuperação à vista.

O comentário sobre as conclusões da pesquisa é ilustrado com exemplos americanos, entre eles a GM, que quando a indústria automobilística japonesa emergiu, liderada pela Toyota, a poderosa empresa americana simplesmente a ignorou. No Brasil, são muitos os casos. Onde está a Varig? Cadê o primeiro rei da soja, Olacir de Moraes? E o Banco de Santos? Arapuã, lembram-se? E aqui em Bauru, não vamos mencionar, mas que fim levaram algumas das nossas empresas, do comércio e da indústria, que brilharam como cometa, permitindo que seus proprietários freqüentassem as colunas sociais? É só puxar pela memória que os exemplos desfilarão e darão interessantes comentários.

Começamos dizendo que as empresas, como os seres humanos, podem prosperar e morrer. Ao examinar as conclusões de Collins, não podemos, também, inverter o raciocínio? Os indivíduos, em sua vida particular e profissional também não estão sujeitos a essas fases de transformação? Não podem ficar envaidecidos com o sucesso e se tornarem arrogantes e convencidos de que podem tudo? Não podem querer crescer, mesmo que precisem fazer coisas eticamente reprováveis? O deslumbramento pelo sucesso não pode fazê-los ignorar os riscos? E quando despencam, também não procuram agarrar-se em alguma coisa que possa salvá-los? E quantos terminam na pobreza e no anonimato, depois de uma carreira que causava inveja? Assim é a vida dos homens e de suas empresas.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru