09 de julho de 2026
Articulistas

Pessoa: ser de relação e festa

padre Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 4 min

No paradigma personalista, a pessoa humana é colocada no centro. “O personalismo salvaguarda a verdade integral do homem, sublinhando sua dignidade intangível e sua abertura radical a uma rede de relações, que se estendem aos outros homens, ao conjunto da criação e, por último, reporta-o à Alteridade absoluta e fundante” (M. Faggioni).

A relação interpessoal, fraterna e de partilha, sem exploração ou dominação, fundamenta-se no que E. Dussel chamou de ética comunitária. Para ele, “a ética é afirmação da vida a partir da experiência da comunidade”. A comunidade é o lugar “desde onde” a vida é preservada e promovida. O personalismo possui caráter relacional e comunitário. Preserva a autonomia possibilitando, porém, um salto qualitativo para autokoinonia - a pessoa se realiza não separada dos outros, mas, sobretudo, na relação com os outros, entendidos como comunidade (koinonia). O relacional garante a subjetividade e o comunitário a solidariedade, de tal modo que o bem da pessoa é o bem da comunidade e vice-versa. O valor intrínseco da pessoa emerge de modo mais evidente quando ela está inserida na comunidade. Fora dela, a dignidade humana pode ser eclipsada ou negada. Nela, a dignidade é reconhecida e tutelada, num clima de co-responsabilidade.

A comunidade (koinonia), lugar de relações vitais, produz o desejo de servir (diakonia), tornando-se um testemunho (martyria) de tutela e promoção da vida. Três momentos constitutivos de identidade e correlatos. A comunidade quando biofílica é expressão da cultura da vida. Oferece suporte para a tomada de consciência (conscientização) da realidade adversa à vida e conseqüente indignação producente, ou seja, desperta e direciona energias pessoais para um objetivo comum (sinergia). A comunidade produz sonhos coletivos, como bem expressou Dom Hélder Câmara: “Sonho que se sonha só é somente um sonho, sonho que se sonha junto torna-se realidade”.

O personalismo de significado relacional-comunicativo foi elaborado por Mounier. Para ele, a pessoa é essencialmente relação e, por isso, comunicação. Sempre situada num determinado lugar social, ela é chamada a ser uma presença engajada e não alienada. O movimento em direção aos outros é o que Mounier indica como constitutivo da pessoa. Trata-se de deslocar a pessoa para a comunidade, evitando o intimismo, isolamento e individualismo que são, para ele, a antítese do personalismo.

Entretanto, não se pode desconsiderar a tensão interior que acompanha o movimento da pessoa em direção aos outros. Afinal, a vida humana é aventura, combate incansável. Requer continuidade e fidelidade, que não são apenas repetição, mas, acima de tudo, inovação, com fidelidade criativa, porém em contínua tensão: “Entre o otimismo que não sofre e o pessimismo impaciente, o verdadeiro caminho do homem é este otimismo trágico, no qual ele encontra sua justa medida numa atmosfera de grandeza e de luta” (Mounier). O caminho do otimismo trágico não é apenas realista, como também producente. É a “via de meio” pela qual se atua o personalismo relacional comunitário.

Para Jean Vanier, a comunidade favorece o crescimento pessoal, pois é um lugar de revitalização. Oferece um sinal para a sociedade: “Com pouca coisa material e sem excitantes artificiais, pode-se ter o coração em festa e maravilhar-se com a pessoa que está perto de nós. Sinal de que é possível trabalhar juntos para que o nosso bairro, aldeia ou cidade se tornem um lugar de mais justiça, de paz, de amizade, criatividade e de crescimento humano. A comunidade tem uma dimensão política. Se o espírito comunitário se propagar realmente, as estruturas mudarão”.

A comunidade solidária e responsável indica ao mundo consumista um novo estilo de vida que exige “menos recursos financeiros, porém mais capacidade de relação”. Para Vanier, no coração da comunidade está a festa. Procura-se fazer festa com quem gosta de festa. “Quanto mais o povo é pobre, mais gosta de festejar. E quanto mais o cotidiano for duro, fastidioso, mais os corações precisam desses momentos de celebração e admiração. A festa é alimento, revitalização. Estimula a esperança e dá nova força para retomar com mais amor à vida cotidiana”. As festas em geral e as juninas em particular confirmam a necessidade que todo ser humano tem de se relacionar e de festejar.

O autor, padre Luiz Antonio Lopes Ricci, é coordenador diocesano de pastoral e professor de teologia moral na Faculdade João Paulo II, em Marília