A oportunidade, muitas vezes, surge em nossa vida e, dependendo do momento, pode ser aproveitada ou não. Nessas poucas linhas quero agradecer a oportunidade que pais e jovens bauruenses nos deram de emprestarem cabeças e bocas para serem radiografadas, fotografadas e moldadas, construindo, assim, um arquivo precioso na disciplina de ortodontia da FOB USP. Foram gentis, altruístas, desprendidos e acreditaram em nosso trabalho.
Hoje, o nosso arquivo contém dados de jovens portadores de boa estética facial e excelente oclusão dentária (que representam o que chamamos de parâmetros de normalidade), que ajudam a diagnosticar e tratar aqueles que buscam assemelharem-se a esses conceitos. São leucodermas (pele branca, descendentes de portugueses, espanhóis e italianos), melanodermas (pele negra e afro-descendentes oriundos de algumas das tribos africanas) e xantodermas (pele amarela, japoneses com descendência restrita de algumas ilhas do Japão). A explicação está na necessidade de estudarmos as características próprias de cada grupo específico, que originaram a maioria da população bauruense. Fizemos restrições a outros grupos também importantes para Bauru, justificando como a maioria populacional daqueles que procuram por tratamento na FOB.
Desde 1950, os trabalhos internacionais mostram diferenças nas medidas entre elementos do mesmo grupo racial, que dirá entre grupos distintos. Sabemos que a substituição da mão-de-obra dos escravos, pelos imigrantes é um fato incontestável. Meu bisavô e familiares, saindo das dificuldades da Itália, que os obrigavam a deslocar-se para a Áustria em busca de trabalho e devido também ao frio, imigraram para o Brasil, parando antes na Argentina. Era culto, sabia ler e falava cinco línguas. Foi trabalhar arduamente, morando com a família no porão da casa do proprietário da fazenda, dormindo junto com animais para aquecerem-se do frio intenso. Comiam em cochos de animais. Protestou junto ao Consulado italiano na Argentina, resultando na remoção da família para Ribeirão Preto. Acreditem, ganhava uns trocados a mais, lendo e contando histórias para os familiares de fazendeiros daquela região.
As oportunidades apareceram e seu filho (meu avô) tornou-se chefe de marcenaria de montagem de carrocerias de caminhões importados pela Ford. Ficou doente e veio tratar-se em Bauru, onde faleceu e seus restos mortais encontram-se em algum cemitério desta cidade, que não consegui localizar. Essa é uma das muitas histórias que compõem a população brasileira. Tivemos influências originárias de todos os continentes.
Cada um com sua história, que os jovens deveriam saber, para ver com que dificuldades viveram seus ancestrais e que legado lhes deixaram. Percebendo que essa miscigenação originou os mestiços e, como hoje, somam-se expressivamente à população, fomos buscar os feodermas (mulatos, filhos descendentes de pais leucodermas e melanodermas, com as mesmas origens das amostras iniciais) e os denominados nipo-brasileiros (nem o Consulado do Japão por nós consultado, sabe que nome podemos chamar o filho da união de leucodermas e xantodermas, pois nominam por geração).
Nossos resultados mostraram que os mestiços, dos diversos pontos de vista por nós analisados, encontram-se no meio dos grupos que os originaram, obrigando-nos a respeitar as diferenças, pois esta mistura racial, originou grupos diferentes de pessoas, com características próprias, que devem ser consideradas. Todo esse trabalho iniciou-se nos anos 60, originou um Atlas de Crescimento Craniofacial e até agora ainda estamos trabalhando nessas belas amostras arquivadas, que ao divulgarmos cientificamente os resultados dessas pesquisas, ajudam os ortodontistas no diagnóstico e planejamento das diferentes más oclusões. Nossa justa homenagem a todos aqueles que acreditaram em nosso trabalho e que ajudam a construir a história dos habitantes de Bauru.
O autor, Arnaldo Pinzan, é professor da FOB-USP e diretor social do Lions Clube de Bauru Centro