08 de julho de 2026
Articulistas

A ópera-bufa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

As instituições políticas do País, que deveriam dar exemplo de seriedade a todos os cidadãos, se transformaram em palco de ópera-bufa. Este gênero teatral surgiu na Itália no século 17 para ironizar os costumes da época. Os autores introduziam em cena personagens burlescos e patuscos - em outras palavras, caricatos e ridículos. O presidente Lula, depois de abraçar Gadhaffi, na Líbia, e achá-lo a cara do Cauby Peixoto depois de dezenas de plásticas, voltou para o Brasil em tempo de assistir a vitória do Corinthians e erguer a taça de campeão. Teve tempo de também determinar ao PT sobrevida a Sarney, antes de viajar outra vez com Marisa Letícia para um prometido fim-de-semana em Paris, com direito a esticada à Itália.

Em duas semanas começa o recesso parlamentar, período em que os senadores esperam que as denúncias caiam no esquecimento. Nem a oposição quer mais a renúncia de Sarney, já que ele cristaliza a crise enraizada na estrutura corrupta do Senado. Sarney é apenas a figura caricata desse feudo arcaico. Como na ópera-bufa, alguém tem que pagar pela safadeza de todos.

O presidente Lula ficou tão irritado com a postura do PT ao ensaiar um pedido de licença de Sarney que telefonou ainda da Líbia para o líder, Aloízio Mercadante. O puxão de orelha valeu. Mercadante, que havia pedido o afastamento do maranhense por 30 dias, voltou a plenário para um pronunciamento patético: “Minha combatividade está a serviço do presidente Lula”. E concluiu obediente ao chefe: “Não há governo sem aliança com o PMDB”. Sarney virou o passageiro da agonia, mas sabe que a presidência do Senado ainda é a única forma de preservar a solidariedade de Lula, seu mais estratégico protetor. O presidente da Nação (ou seria danação?) pensa na importância da parceria do PMDB para as eleições de 2010. Sarney encarna a Síndrome da Gabriela, aquela do “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vou ser sempre assim”. Convenhamos, depois de 40 anos no uso do patrimônio público como se fosse seu é mesmo difícil mudar. Ainda bem que todo mundo é corrupto. Se não é, vai ser.

Pena que os jovens não tenham conhecido Justo Veríssimo ou Odorico Paraguaçu, dois personagens constantes nas noites da televisão brasileira nos anos 70 e 80. Justo Veríssimo, criado e interpretado por Chico Anísio, era o estereótipo do político venal, arbitrário e impune, afeito às maracutaias do poder e da corrupção. Seus bordões sempre queriam que o povo se danasse, tal era o seu desprezo pela coletividade. Odorico Paraguaçu, genial criação de Dias Gomes, foi transportado da peça O Bem Amado para a novela homônima. O personagem encarnava o espírito político semelhante ao de Justo, porém menos arrogante. Encontrava justificativa para tudo. Seria capaz de dizer: “A crise não é minha. É do Senado”. Se fosse indagado sobre a casa de R$ 4 milhões não declarada à Justiça Eleitoral, diria que “foi apenas um erro técnico”. Igual ao “recurso não-contabilizado” do mensalão. “Ato secreto? Isto não existe!”. Pode ter havido “falta de publicação”, uma questão burocrática a cobrar dos funcionários do Senado. “Minha filha nunca teve mordomo”. O “Secreta” é só um motorista do Senado com salário de R$ 12 mil que freqüenta a casa da Ro. Para Sarney, a constatação de que para 81 senadores havia 181 diretorias é a demonstração mais eloqüente de que ele apenas seguiu a regra do jogo ao nomear quase a metade desses megafuncionários.

O Brasil está cheio de Odoricos e Veríssimos. Nada mais real do que a ficção. Os partidos políticos operam sob a lógica do interesse privado em detrimento do público, do auto-interesse ao invés do interesse social. O que vale é a sobrevivência política do grupo de apaniguados, custe a quem e quanto custar. É doloroso constatar que ainda existam no país grotões miseráveis que lastreiam anacrônicas política de coronéis. São lideranças consolidadas em estruturas do poder econômico, erguidas à custa do erário e da propina. Hoje, com um modus operandi aperfeiçoado eles gravitam em torno das barganhas e acordos espúrios, dos quais a moeda de troca é o favor, o apadrinhamento, a distribuição de cargos que sustentam seus ganhos.

Quando o parlamento nacional é manchado por questões éticas ou aviltado em sua força, é a própria democracia que está sendo aviltada. Nem o presidente da República resiste a esse jogo de cena que esta acima da ficção, por retratar a verdadeira tragédia nacional.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC