08 de julho de 2026
Nacional

Poupança rende mais que os CDBs


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São Paulo - Com a queda da taxa básica de juros (Selic) para o menor nível da história, a poupança já rende mais do que os títulos emitidos pelos bancos (CDBs) e a maioria dos fundos DI voltados ao pequeno investidor. Apesar disso, o brasileiro ainda se mostra pouco disposto a migrar para a caderneta, que tem uma remuneração mínima definida em lei de 6% ao ano mais a variação da Taxa Referencial (TR).

A captação líquida da mais tradicional aplicação financeira do País estava positiva em apenas R$ 775 milhões no ano até o dia 29 de junho. No mesmo período, os fundos de renda fixa acumulavam superávit de R$ 5,5 bilhões.

No entanto, se for levado em conta apenas o mês de junho, o balanço da poupança até o dia 29 mostrava depósitos superiores aos saques de R$ 419,7 milhões. Em maio, o saldo foi bem maior: R$ 1,9 bilhão. O movimento em 2009 também é modesto se comparado ao dos dois últimos anos, quando a taxa Selic era mais alta e, consequentemente, a maioria dos fundos - e os CDBs - batia a caderneta.

Entre janeiro e junho de 2007 e de 2008, a captação líquida da poupança foi de R$ 8,7 bilhões e R$ 4 bilhões, respectivamente. Essa realidade contraria a expectativa de muitos analistas e ajuda a explicar por que o governo pôs em ponto morto o projeto que muda as regras de tributação da caderneta, anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, no dia 13 de maio. “O ritmo de aportes na poupança vem se mantendo estável no último ano e meio, na faixa de R$ 10 milhões a R$ 15 milhões por mês”, disse o estrategista de investimentos pessoais da Santander Asset Management, Aquiles Mosca. “Não temos percebido migração para a poupança”, afirmou o diretor executivo do Itaú-Unibanco, Osvaldo Nascimento, responsável pelos produtos de investimentos da instituição.

Segundo especialistas, uma série de razões explica a cautela dos investidores. “A complexa regra do governo para (mudar) a poupança deixou as pessoas com o pé atrás”, disse o professor da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite. O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ernesto Lozardo acrescenta outros dois fatores. O primeiro está relacionado à estabilidade da economia. “Há 15 anos, fiz um trabalho que mostrava que o brasileiro tomava muito rapidamente suas decisões financeiras, com medo da inflação”, comentou. Lozardo cita, ainda, outra explicação: a crise - que reduziu a renda das pessoas e as levou a sacar dinheiro da caderneta para honrar compromissos ou até mesmo para consumir.

Para Alexandre Chaia, professor de Finanças do Insper (antigo Ibmec São Paulo), o papel do gerente de banco é chave para entender o comportamento ainda errático do brasileiro em relação à poupança. “A maior parte dos clientes pede conselho ao gerente, que ainda não percebeu que a caderneta já rende mais do que muitos fundos”, pondera. “É uma questão cultural, que precisará de tempo para mudar.”

O professor da Faculdade de Economia e Administração da USP Roy Martelanc chama a atenção para uma curiosa questão comportamental. “Tem muita gente que não aplica em poupança porque acha que é coisa de pobre”, afirmou. O especialista também destaca o contra-ataque dos bancos, por meio da redução do valor mínimo de aplicação em vários fundos de investimento.