09 de julho de 2026
Esportes

Vítor Hugo; o bom filho à casa torna

Wagner Teodoro e Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 13 min

Vítor Hugo Siqueira, 45 anos, mais de 30 deles dedicados ao futebol e com dez passagens pelo Noroeste – seis delas como jogador e quatro como treinador – desempenha há menos de um mês uma função nova em sua carreira no clube bauruense: a de diretor de futebol. “Vitão”, como é popularmente conhecido, foi o escolhido pelo presidente Damião Garcia para comandar o processo de enxugamento e adaptação do Norusca a uma nova realidade, já que o clube volta, em 2010, a disputar a Série A-2, depois de quatro anos na elite do futebol paulista.

Enérgico, exigente e linha-dura, Vítor Hugo aceitou a responsabilidade de readequar um clube que perdeu sua trajetória de sucesso e sonha alto: devolver o Norusca à elite paulista, em um primeiro estágio, e, posteriormente, chegar também à primeira divisão nacional. Nesta entrevista, Vitão fala de sua identificação com o Noroeste, projetos para o clube em sua nova incumbência, lembra de momentos de sua carreira como jogador e técnico e reforça que a Copa Paulista servirá de laboratório para a disputa da Série A-2 no próximo ano, no projeto de acesso no centenário do Noroeste. Leia, a seguir, os principais trechos:

JC – Você não esconde sua identificação com o Noroeste e já comentou que é diferente trabalhar aqui. Por que diz isso? Vítor Hugo – O Noroeste é diferente porque vim para cá jovem, com 20 anos. Com duas camisas, três calças, um chinelinho, um tênis na bolsa para buscar espaço. Eu jogava no Esportivo de Bento Gonçalves, o Varlei (de Carvalho) que me trouxe. A gente chega em um outro Estado, tudo diferente, difícil. Mas a cidade me recebeu de braços abertos, logo fui fazendo grandes amizades que tenho até hoje. Conseguimos logo no primeiro ano um acesso, com os jogadores que o Varlei trouxe, muitos desacreditados pela imprensa, e fomos criando uma família, juntamente com os jogadores que já estavam no clube, que tinha caído da primeira divisão.

Nos juntamos a eles, formamos um grupo, uma família. A gente fazia churrasco toda segunda-feira (pausa, Vítor Hugo se emociona e começa a chorar). Eu com a minha mãe doente (nova pausa). O Varlei montou o time, em um começo difícil. Eu com problema com minha mãe, que a perdi no dia 16 de janeiro de 1987. Passamos o ano e ficou para o ano seguinte o quadrangular decisivo, em Campinas. Fomos para lá, ficamos uma semana fazendo pré-temporada para estrear no quadrangular e conseguimos o acesso. Quando faltava uma rodada para acabar o quadrangular, voltamos, porque o Noroeste já tinha subido. O Noroeste e o Bandeirante.

JC – O que era diferente em sua época de atleta para agora, como dirigente? Vítor Hugo – Era diferente porque a gente estava começando a vida. Fiquei um ano aqui e formei uma família. A segunda família minha era o Noroeste. Acabava o jogo e nos reuníamos. Hoje, você não vê isso, dificilmente vê. Não tem nem tempo. Você disputa um campeonato, que é quatro, cinco meses. Quando acaba, muitas vezes, você nunca mais vê o cara. Antigamente, os campeonatos eram mais longos. Em 1986, ficamos o ano inteiro jogando, o grupo de jogadores não mudava muita coisa. Sabia-se a escalação decor, não mandava-se jogador embora, era muito difícil. Hoje é um entra e sai tremendo, uma rotação de jogadores. Você vai disputar, por exemplo, uma Copa Federação, e forma um grupo com 25, 27 jogadores.

Depois, para o Campeonato Paulista da Série A-2, quantos jogadores vão ficar? Vai-se disputar uma Copa, que vai durar quatro, cinco meses no máximo. Por estes fatores que é diferente trabalhar no Noroeste. Trabalhei em 26 clubes no Brasil, em muitos passei até por cinco vezes, até senti um carinho pelo clube, mas igual ao Noroeste não. No Noroeste, a cidade me acolheu, é a cidade onde formei minha família, criei meu filhos. É diferente. Por exemplo, minha família, quando trabalho em outros clubes, não vai aos jogos com a camisa (do time). Quando estou no Noroeste, minha família vai com a camisa. É uma situação totalmente diferente. No Noroeste, a gente faz as coisas com amor.

JC – Essa é sua estréia como dirigente. Você chegou a ter algum receio? Vítor Hugo – Nenhum. Estou no futebol há 32 anos. Não tem mistério e outra coisa: quando a gente trabalha em clubes de menor expressão, quando você é técnico, faz de tudo um pouco. Faz a parte de cartola, faz a parte de presidente, de supervisor, administração, faz de tudo. Estou nessa há um bom tempo, adquiri uma experiência boa. Claro que não vou acertar em tudo, mas vou procurar errar o mínimo possível para que o Noroeste tenha êxito nesta caminhada.

JC – Você citou a “família” que se formou em sua época de jogador, em 1986, no Noroeste. Analisando esses 23 anos que se passaram, o que mudou no futebol neste período? Vítor Hugo – É muito diferente. Antigamente, não havia empresário, era um ou outro. Hoje, o jogador nem começou e já tem um empresário por trás. Clube pequeno hoje tem muita dificuldade para manter o futebol. Surge um jogador e já tem muita gente querendo levar este jogador embora, empresário por trás querendo este atleta, porque vê um futuro recebimento na seqüência. Se você pega um garoto de 19, 20 anos e leva para um Palmeiras, um São Paulo, com certeza, vai ganhar alguma coisa. Antigamente, não. A federação ajudava, o jogador era vinculado ao clube. Se você quisesse contratar um jogador, tinha que comprar do clube.

Eu vim para o Noroeste, comprado. Fui emprestado, chegou o final do empréstimo em dezembro e nosso presidente na época, que era o Badih (Massaad, presidente noroestino em 86 e 87), foi comigo para o Rio Grande do Sul e teve que comprar meu passe, teve que pagar. Fui vendido para o Bragantino, que teve de pagar o Noroeste para eu sair. Hoje, o atleta tem um contrato até 31 de dezembro, chegou 1 de janeiro, ele está livre, independentemente se o Noroeste investiu nele tantos anos. Se quiser continuar, continua. Se receber uma proposta um pouquinho melhor, deixa o clube falando sozinho. Hoje virou negócio o futebol. Antigamente, era um esporte, que todo mundo gostava. Hoje é negócio. Por que tanta gente se aproxima do futebol? Buscando lucro, é muito dinheiro envolvido. Hoje, qualquer jogador vale uma fortuna. Vê quantos empresários existem no Brasil hoje. Há 20 anos, tinha um, dois em São Paulo, um, dois no Rio Grande do Sul... Para você falar com um empresário, demorava tempo. Hoje, você nem chutou a bola ainda e o empresário já está batendo em sua porta. Você liga para um jogador querendo contratá-lo e ouve ‘tem que falar com meu empresário’.

JC – Você acredita que tem muita gente que entende de negócios e pouco de futebol no meio hoje? Vítor Hugo – Com certeza. Tem gente que entende de futebol, mas virou um negócio e um negócio rentável. Principalmente quando se joga os campeonatos de elite do futebol brasileiro, tanto o regional quanto o nacional. Há um retorno muito grande em termos financeiros para os clubes.

JC – Nesta sua volta como dirigente, você teve de trabalhar muito e correndo contra o tempo. O estágio em que estava o clube o surpreendeu de forma positiva ou negativa? Vítor Hugo – Sempre acompanhei o Noroeste e sabia que, desde que o seo Damião (Garcia) assumiu e pagou aquilo que tinha que pagar, resolveu os problemas do clube, o Noroeste tinha uma estrutura muito boa. Mas poderia estar melhor. Talvez o seo Damião não saiba de tudo o que se passava dentro do clube. O Noroeste poderia estar numa situação melhor, com menos problemas, melhor administrado.

JC – Quais problemas? Financeiros? Vítor Hugo – Financeiros não. Porque, quando há problema financeiro, nosso presidente põe a mão no bolso e resolve. Mas, do lado estrutural do clube, até mesmo o estádio poderia estar melhor. Mas, de repente, as pessoas que passaram não são daqui e não têm muita identificação com o clube, não tem muito vínculo. Para eles, isso não adiantava muita coisa. O que mais adiantava era ter as transações, ter jogadores para colocar aqui e ali, trazer, levar. Acho que isso foi o objetivo do pessoal.

JC – O que foi determinante para o rebaixamento do Noroeste? Vítor Hugo – A falta de planejamento. Você não pode ir para uma pré-temporada com 37 jogadores. Tem que estar com um grupo mais ou menos definido. Quando acabou o Campeonato Paulista do ano passado, que foi em abril, você tem até novembro para fazer uma seleção de jogadores no Brasil, porque são três divisões, Série A, Série B e Série C, para contratar. Não pode deixar para contratar em dezembro. No meu modo de pensar, o Noroeste já tem que pensar em Campeonato Paulista da Série A-2. Nosso maior objetivo o que é? No ano do centenário, voltar com o clube para a primeira divisão. A Copinha também é interessante, importante. O torcedor, a cidade, não aceita o Noroeste entrar apenas para disputar. O Noroeste tem que entrar para ganhar. Se vai ganhar, é outra história. Entendo que o trabalho já começou para a Série A-2. Não estou perdendo tempo. Em dezembro, o time já vai estar montado, um time em condições de retornar à primeira divisão. A Copinha é um laboratório.

JC – O rebaixamento para a Série A-2 não arranhou a imagem do clube? Vítor Hugo – Não. O Palmeiras caiu para a Série B do Brasileiro, o Fluminense foi à Série C do Brasileiro. Deixaram de ser grandes? Não. Foram para dentro do campo, jogaram e conseguiram o acesso. Estão aí, fortalecidos. (O Fluminense) Chegou a uma final de Libertadores. O Noroeste, pode ter certeza, no ano que vem vai voltar. O Noroeste tem que trabalhar, e muito, para começar a disputar Campeonato Brasileiro. É na Série D que temos de começar? Vamos nos fortalecer, subir para a C, da C subir para a B e, quem sabe, da B subir para a A. Por que não? Temos que pensar alto, não pode pensar lá embaixo. Sabemos das dificuldades, mas a gente pensa alto. Quem sabe ver o Noroeste, amanhã, disputando uma Série A do Brasileiro. Já pensou a importância que seria para Bauru?

JC – Uma das críticas da torcida é de que o Noroeste só se preocupa com o Paulistão. Por que não pensar em conseguir uma vaga na Copa do Brasil também? Vítor Hugo – Me preocupo com o Campeonato Brasileiro. Acho que o Brasileiro é muito mais importante que o Paulista. Entre disputar um Paulista da primeira divisão e um Brasileiro da Série B, prefiro a Série B. É um campeonato de sete meses, você tem 38 jogos, televisão em todos os jogos. Só que você tem que adquirir isso. Como se adquire? Trabalhando, formando uma estrutura, fazendo as coisas certas. Para num futuro bem próximo pensar nisso. O Noroeste já esteve bem próximo, inclusive quando eu jogava. Em 1991, empatamos em Campinas por 1 a 1 e perdemos aqui. Por que não? Temos que sonhar com isso.

JC – Outra crítica feita à campanha do clube no Paulistão 2009 foi de jogadores freqüentando muitas baladas. O que se faz hoje para evitar isso? Vítor Hugo – No último ano em que estive aqui como treinador, em 2007, isso era um grande problema dentro do Noroeste. Cheguei a discutir com membros da diretoria por isso. Onde já se viu um jogador ficar sete meses no departamento médico?. E teve um jogador que ficou sete meses no departamento médico com problema muscular, só que o cara não saía da noite. Noite com atleta não combina. Ou você é da noite ou você é atleta. Ou você é da noite e não vai trabalhar comigo ou você é atleta e vai trabalhar comigo. O cara, se for da noite, vai ter problema comigo, pois hoje posso tomar providências. Não tenho vínculo com jogador, tenho acerto com o clube em que trabalho e tenho de apresentar rendimento. Da mesma maneira que trouxe, mando embora.

JC – Em sua época de jogador, de qual passagem engraçada você se lembra? Vítor Hugo – Em minha época de jogador, era muito arteiro, sacaneava muito. Fiz muitas artes no futebol. Morava na concentração em São Carlos, quando defendia a Sãocarlense. Saí e cheguei um pouco tarde. Todo mundo dormindo e era época de São João. Aí, fui no quarto do Lopes, um zagueiro aqui de Jaú, e peguei uma bombinha que eu tinha, mas daquelas grossas. O preparador físico, o Brejão, que hoje está no Marília, morava junto com a gente. Fui, risquei, estava faltando um tijolo em cima da porta do quarto dele e joguei. Corri para meu quarto, fechei a porta, deitei de roupa e fiquei quieto. Daí a pouco foi ‘bum’. O Brejão levantou, só de cueca, saiu correndo no corredor gritando ‘quem foi o filho da p...’ No outro dia, fui ver o quarto dele. Sorte que ele estava na outra cama, abriu um rombo no colchão (risos).

JC – E apuro, passou por algum? Vítor Hugo – O maior apuro que passei no futebol foi Noroeste x Sertãozinho, em 1986. Na primeira fase, eles vieram aqui e apanharam. Batemos neles, saíram dez da noite do estádio, o gandula deu um soco no goleiro deles. Foi um quebra-pau e batemos neles. Mas ninguém sonhava que perto da final do campeonato iria se cruzar Noroeste e Sertãozinho para disputar uma vaga para o quadrangular final. O primeiro jogo aqui, o estádio bonito, chovendo, ganhamos de 1 a 0. Aí, a gente tinha que jogar com eles lá. Não foi imprensa, torcida, ninguém. Fomos, ficamos no hotel em Jaboticabal, pertinho. Aí, a gente estava assistindo o esporte na TV, na hora do almoço. O símbolo do time lá é um touro, o Touro dos Canaviais. Os caras colocaram um touro mecânico em cima de um caminhão e saíram pela cidade: ‘hoje eles vão pagar o que fizeram conosco’, ‘hoje eles vão morrer’. Teve jogador nosso mais experiente que estava muito preocupado.

Chegamos no estádio, quando nosso ônibus se aproximou, os cortadores de cana do (Nivaldo) Balbo balançando o ônibus, quase virando. Pensei: ‘não vou descer aí, não. Nós vamos morrer’. Aquela confusão, eles esperando a gente descer, batendo. A gente corria para o vestiário embaixo de porrada. Não conseguimos aquecer, o vestiário estava com um monte de coisas, pó de mico... Não dava para ficar lá. O Badih (Massaad, presidente alvirrubro) saiu para ver o jogo, queriam matá-lo. Teve duas expulsões logo no começo do jogo. Uma para cada lado.

Eu fui expulso no segundo tempo e estávamos perdendo por 1 a 0. Não conseguia sair do gramado, a torcida não deixava, jogando pedra. Fui correndo, escorreguei e desci de bico na escada, caí lá embaixo. Deu cinco minutos, só vi jogadores do Noroeste correndo para dentro do vestiário, uma gritaria. O juiz deu pênalti para nós e a torcida invadiu o campo. Davi Sidney Avero era o árbitro e a torcida toda correndo atrás dele. Ele chegou no túnel, que era cercado por ferro, pulou por cima e caiu lá embaixo. Quase o mataram. Voltou cheio de sangue, tinha dado pênalti para nós, voltou atrás e marcou escanteio. Os caras entraram no vestiário e puseram revólver na cabeça dele e falaram: ‘você vai dar escanteio’. Retornou ao jogo, deu escanteio, mais uns dez minutos e acabou o jogo. Aí, na súmula ele escreveu o que aconteceu, e ganhamos, porque a Federação eliminou o Sertãozinho.