09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Otacílio Garms Filho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Experiência e muita história para contar

A memória não falha na hora de falar sobre as lembranças e recordações de vida. E quantas histórias Otacílio Garms Filho tem para contar desses seus 63 anos. Sempre muito ativo, o promotor aposentado começou sua carreira profissional como um simples office boy. Simples sim, mas cheio de sonhos, determinação e garra.

O garoto que começou sua vida profissional como um ‘faz tudo’ da Prefeitura Municipal de Bauru, se aposentou como promotor de Justiça. A brilhante carreira de Otacílio foi construída de degrau em degrau e sempre com a ajuda da família e de amigos especiais, ajuda que faz questão de agradecer mesmo depois de todos esses anos. E dedicação e força de vontade nunca faltaram para a formação da carreira dele. Mesmo que o sonho de menino, aquele da maioria dos garotos brasileiros, de ser um jogador profissional de futebol, tenha ficado para trás.

Mas nem tanto para trás assim. Ele vestiu um sonho de infância com as camisas do Noroeste e do Bauru Atlético Clube, times pelos quais jogou profissionalmente antes de se dedicar ao direito. A paixão pelo futebol é tanta que ele já foi diretor profissional do Esporte Clube Noroeste, fase que também rendeu muitas lembranças.

O advogado, delegado e promotor ainda foi diretor e presidente do BTC, clube que se funde com sua história e pelo qual tem grande estima.

Entre todas as realizações da vida de Otacílio, ele cita a construção e a união de sua família como a sua maior realização. Confira esse assunto e muitas outras histórias contadas por esse bauruense de coração ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Como foi sua trajetória profissional? Otacílio Garms - Comecei a trabalhar na prefeitura de Bauru como office boy e saí, em 1967, como escriturário. Fui delegado de polícia estadual de 1971 a 1976 e promotor da Justiça por 22 anos, de 1976 a 1998.

JC - Como surgiu o desejo pela carreira jurídica? Otacílio - Fiz faculdade de direito no Instituto Toledo de Ensino (ITE). Eu tenho um tio, Ovande Garmes, que é juiz aposentado e que foi o primeiro da família a fazer direito e a passar em um concurso público, primeiro para delegado e depois para juiz. Então, acompanhei esse meu tio e fui o segundo da família a seguir carreira jurídica.

JC - Como foi seu trabalho como delegado? Otacílio - Como delegado eu trabalhei nos plantões em Bauru e como titular nas delegacias de Polícia de Avaí e Lençóis Paulista.

JC - E a carreira como promotor de Justiça? Otacílio - Eu sempre me dediquei ao máximo. A carreira jurídica exige uma dedicação e tudo deve ser analisado com muito carinho e tranqüilidade para que injustiças não sejam cometidas. A denúncia é o principal instrumento do promotor e é um trabalho muito criterioso e difícil. Às vezes, é melhor você absolver um culpado do que condenar um inocente.

JC - O senhor ainda trabalha com as leis? Otacílio - Sim. Sou promotor de Justiça aposentado mas atuo como consultor no escritório TZGC, onde meu filho mantém uma sociedade com três advogadas. Freqüento o escritório com bastante regularidade e sinto muito orgulho por meu filho estar seguindo essa carreira. O escritório está com grandes parcerias que fundamentam o comprometimento e a competência de meu filho e de suas sócias. Meu projeto profissional atual é acompanhar meu filho e o escritório.

JC - É um homem realizado profissionalmente? Otacílio - Sim. Procuro fazer tudo sempre com muita dedicação e acredito que fiz tudo o que tinha que fazer.

JC - Qual é a sua visão sobre a Justiça brasileira? Otacílio - Eu acredito na eficácia da Justiça e ressalto que todos os profissionais envolvidos precisam ter muita cautela e cuidado no trabalho. Mas, como em todas as profissões, há pessoas boas e ruins e as falhas fazem parte do ser humano.

JC - Quais foram as pessoas que marcaram sua vida profissional? Otacílio - Muitas pessoas marcaram minha carreira profissional. Calmette Satyro Bonatelli, José Fernando da Silva Lopes, Alfredo Enéias G. D’Abril, Damásio E. de Jesus, Fernando da Costa Tourinho Filho e Francisco de Assis Moura, entre outros nomes, colaboraram para minha formação jurídica e profissional, e eu tenho gratidão por eles.

JC - Por quanto tempo o senhor atuou como presidente da diretoria do Bauru Tênis Clube (BTC)? Otacílio - Por dois mandatos que juntos somam quatro anos e sete meses. Eu colaboro com o clube desde 1982. Ajudei no futebol, depois como diretor geral de esporte e, finalmente, fui presidente no ano de 2004 até o final de 2008.

JC - O senhor deve ter visto e participado de muitas festas e eventos sociais durante todos esses anos. O que ficou na memória? Otacílio - Eu gostava muito dos eventos daquela época. Mas, hoje, a concorrência com os clubes é muito grande. Antigamente, no Carnaval por exemplo, as pessoas nem precisavam ser convidadas e o clube ficava lotado. Agora não é mais assim. A concorrência com as danceterias e casas noturnas fez com que os clubes mudassem o foco e se adaptassem à realidade. Os bailes são diferentes e focados em shows, por exemplo. Durante os mandatos como presidente eu aprendi como é importante o apoio dos diretores, conselho, associados e parceiros como o JC e a FM 96, entre outros. Muitas pessoas dedicam parte de seu tempo ao clube e merecem gratidão por isso.

JC - Como foi sua passagem na direção do futebol profissional do Esporte Clube Noroeste? Otacílio - Trabalhei de 1989 a 1993. Nesse período, disputamos quatro campeonatos paulistas, séries A1 e A2, e cinco brasileiros das séries B e C.

JC - Encontrou dificuldades como diretor do Noroeste? Otacílio - Hoje em dia a dificuldade do futebol é a parte financeira porque as receitas, muitas vezes, são menores que as despesas. Tivemos um período bom no Noroeste onde quase subimos, por duas vezes, para a série A do brasileiro. Mas, sem dinheiro, as dificuldades sempre aparecem.

JC - O futebol é uma grande paixão em sua vida? Otacílio - Sim. O futebol sempre fez parte da minha vida e ainda faz. Joguei futebol desde criança. Comecei nas equipes de bases da Portuguesinha, depois fui para o Noroeste, isso no final de 1963, fiquei no clube até 1965 como jogador profissional, depois fui para o Bauru Atlético Clube (BAC), em 1966, onde joguei amistosos até o início de 1971.

JC - Por que desistiu da carreira de jogador profissional? Otacílio - Tive dois contratos com o Noroeste e um com o BAC. O primeiro foi em 1964. Porém, em 1965 eu entrei para a faculdade e não tinha mais tempo para treinar porque estava estudando e trabalhando na prefeitura.

JC - Houve arrependimento em algum momento? Otacílio - Não, não. Eu apenas tentei uma carreira que não deu certo e o que eu queria mesmo, naquele momento, era fazer a faculdade de direito. Mas, como eu sempre falo para os amigos: eu realizei meu sonho de garoto ao vestir a camisa titular do Noroeste e do BAC.

JC - Qual é o espaço que o futebol ocupa na vida do senhor hoje? Otacílio - Não jogo mais, mas acompanho o pessoal. Sou um torcedor corinthiano. Gosto de acompanhar e estar perto do futebol.

JC - Como foi a educação que o senhor recebeu? Otacílio - Meus pais não eram rígidos, mas exigiam que eu e meus irmãos estudássemos muito.

JC - Procurou passar os mesmos princípios para seus filhos? Otacílio - Sim. Acredito que a educação dos filhos deve ser uma das principais preocupações dos pais. Meu filho é advogado, como já disse, e minha filha é dentista.

JC - O senhor ficou feliz por seu filho seguir seus passos e cursar direito? Otacílio - Fiquei sim. Na verdade, muitas pessoas da nossa família optaram por essa carreira e acredito que ele teve certa influência por causa disso já que, desde pequeno, ele sempre viveu nesse ambiente. Porém, nunca houve imposição, tanto é que a Daniele (filha) fez odontologia.

JC - Qual é a maior realização de sua vida? Otacílio - Além de toda minha vida profissional e pessoal, o nascimento de meus filhos gêmeos, Daniele e Rodrigo, e do meu neto Rafael marcou a minha vida e a vida de Arlete (esposa). Acredito que a grande realização da vida de um homem é a família. Primeiro os pais e os irmãos e depois a família construída ao lado de uma mulher, com filhos e netos. Sou casado há 36 anos e namorei minha esposa por dez anos, então estamos juntos há 46 anos.

JC - O que a família significa para você? Otacílio - Acho que a família é a coisa mais importante de todas e a base de tudo. A alegria de ser pai é imensa e ser avô é indescritível. A felicidade não está em cargos ou dinheiro e sim dentro da família. A minha é bastante unida e grande. Somos em 60 pessoas, aproximadamente.

JC - Tem alguma lembrança inesquecível? Otacílio - Tenho pessoas inesquecíveis. Meus pais, Otacílio e Isaura, que com a alfaiataria formaram uma bela família e criaram quatro filhos, todos com diploma universitário.

JC - O senhor tem parentes na política. Nunca pensou em se candidatar a um cargo público? Otacílio - Meu irmão foi vereador de Bauru por 16 anos, mas eu não tenho vocação política. Acho interessante o trabalho dos políticos, porém, nunca me interessei por esse lado.

JC - O que faz nas horas vagas? Otacílio - Procuro treinar na academia do BTC três ou quatro vezes por semana. Aos sábados e domingos eu sempre vou ao clube. Embora não jogue mais, sempre estou perto das atividades esportivas do Tênis com meus amigos.

JC - Qual é o valor da amizade para o senhor? Otacílio - Tenho amigos de infância e ainda freqüentamos a casa um do outro. Posso citar alguns nomes como Chiquinho, Carlos Alberto Ferreira Menezes, Zequinha e Jaime Ferreira Menino, entre outros. Acredito que sou uma pessoa de fácil relacionamento e procuro sempre prestigiar as pessoas que gosto com uma palavra de incentivo ou de carinho. Tenho um número grande de pessoas que participam da minha vida, seja em churrascos, em casa ou no lazer do Clube de Campo do BTC. Eu gosto muito de manter amizades e nem sei o que seria de mim sem meus amigos.