Mãe de três crianças, Dilene Sávia Capiotto é pura desilusão. Após passar por vários profissionais, não sabe como tratar a caçula Hayra, de 1 ano e 10 meses. A criança sofre de uma espécie de apnéia noturna. “Passo a noite inteira vigiando o sono dela porque ela pára de respirar. Fico desesperada. Corro ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI) e ninguém resolve o problema da minha filha”, diz.
Ela é sempre orientada a procurar a unidade básica de saúde, de onde sairá o encaminhamento para atendimento especializado. “Mas é para ‘agosto de Deus’. Ninguém sabe quando. Cada dia é uma pessoa que atende, é uma informação prestada. Não existe relação médico-paciente”, garante. Pessoas como ela não têm qualquer médico como referência, situação comum no Pronto Socorro-Central. Por lá, o comentário era de que a consulta é muito rápida, com a função apenas de medir a pressão.
Já Maria de Fátima Pascolato dos Santos tem uma relação bem melhor com os médicos. Por 11 anos se tratou com um oncologista, a quem confia outros problemas de saúde quando faz os exames de rotina. “É ele quem me orienta, me dá confiança, segurança”, comenta. Ela não tem críticas ao atendimento prestado aos usuários do SUS.
Hospital era para pobre
Antes do século 18, ou seja, antes do Positivismo, o hospital era essencialmente uma instituição de assistência dirigida aos pobres, já que os ricos levavam os médicos para suas casas. Apesar de ser uma instituição de assistência, o hospital servia também como recurso de exclusão social.
O pobre, como pobre, tinha necessidade de assistência e, se fosse também doente, poderia ter alguma doença contagiosa. Logo, poderia ser perigoso. Além disso, o pobre poderia estar louco, ou seja, oferecer mais perigo ainda. Por conta disso, o hospital existia tanto para acolher esses pobres, quanto para proteger a sociedade do perigo que ele representava. A informação foi apresentada no 7.º Simpósio de Relacionamento Terapeuta-Paciente do Hospital Américo Bairral, em Itapira.
Segundo informações divulgadas no evento, de certa forma não se pretendia a cura para o usuário do hospital até o século 19, mas sim uma assistência material e espiritual. Em alguns casos pretendia-se dar os últimos cuidados ou o último sacramento. Depois do século 18, com a explosão do conhecimento e da técnica, com o aprimoramento crescente dos meios de diagnóstico e tratamento, houve uma inversão no papel dos hospitais, quase ou tão incômoda quanto a situação anterior.
Ao se abordar técnica e cientificamente a doença, confortar e consolar o doente passaram a ser coisas do passado. Mas sempre houve interesse em evitar a doença e a morte, em qualquer época histórica. Porém, entre o sofrimento e a morte, pode ser que a segunda seja menos temida que a primeira. Pelo que se sabe da realidade dos pacientes, tem sido muito freqüente ouvir nos corredores dos hospitais que não se teme tanto a morte quanto a dor e os sofrimentos relacionados ao processo de morrer.