08 de julho de 2026
Geral

Relação médico-paciente ameaça Saúde

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O médico que mais sabe não necessariamente é o que mais cura. Muitos profissionais bem formados não conseguem resultados compatíveis com o repertório conquistado porque não têm sensibilidade para ouvir e entender quem procura por eles com um problema. No âmago da questão está a já desgastada relação médico-paciente, capaz de comprometer todo um tratamento e, inclusive, a saúde pública.

No Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, profissionais da área e pacientes são unânimes ao apontar como raros os casos em que a relação médico-paciente sobrevive. Normalmente, apenas em serviços de alta complexidade, como em unidades para tratamento oncológico ou dirigidas a pessoas com deficiência. Na maioria dos casos, o paciente do SUS não tem um médico de referência.

É de ninguém. Consulta com um médico, opera com outro, é acompanhado por um terceiro e recebe alta de um quarto, conforme a escala de plantão. Quem conta com planos de saúde ou ainda tem a prerrogativa de pagar assistência médica privada não está livre do problema. Neste caso, no entanto, a relação médico-paciente é ameaçada por outros fatores.

Segundo artigo do médico e livre-docente pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luiz Antonio Nogueira-Martins, o desenvolvimento de novos recursos de diagnósticos e terapêuticos, a influência da indústria farmacêutica e de equipamentos, além da crescente presença das empresas compradoras de serviços médicos são fatores que têm produzido profundas transformações na profissão médica, modificando o cenário do exercício profissional.

“As repercussões dessas mudanças ocorrem em vários campos, como por exemplo, nas relações entre médicos e pacientes”, comenta em texto também assinado por Maria Cezira Fantini Nogueira-Martins.

Hiperespecialização

Com a hiperespecialização da medicina, é o próprio paciente quem faz seu primeiro diagnóstico e procura um especialista. Em muitos casos, esse profissional dialogará apenas com a parte enferma do ser humano que o procurou. É pouco comum o profissional ser capaz de fazer um atendimento holístico, geral - embora a história natural das doenças e a maneira de suspeitar delas não tenha mudado nos últimos 30 anos. O que melhorou e evoluiu foram os tratamentos e exames diagnósticos, por exemplo.

Em muitos casos, os novos recursos tornam-se escape para profissionais que preferem evitar um alto grau de comprometimento com os pacientes, submetidos a uma via sacra para obter todos os testes exigidos para que o diagnóstico seja fechado. Quem evita o sofrimento com atenção e capacidade de despertar confiança, cai na graça do paciente mesmo com um repertório menos vasto. E apesar da fragilidade da relação nos consultórios e hospitais, o médico continua no pódio das carreiras mais confiáveis.

Ficou em primeiro lugar (71,57%), seguido pelos policiais federais e pelos economistas, segundo levantamento realizado no final de 2007 pelo instituto de pesquisa Market Analysis. Foram consultados cerca de 800 adultos em oito Capitais do País (Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e São Paulo).

“Aprimoramento científico continuado, teórico e prático, a observância aos preceitos éticos e humanitários, o bom senso, o discernimento decisório e a relação médico-paciente compõem a imagem do médico confiável. Este, sim, o médico que cura mais, o bom médico”, conclui o ortopedista Viriato Moura, em artigo divulgado na Internet.