Apesar de Calígula ter passado à história como um imperador sanguinário, depravado e psicótico havia algo ainda pior em Roma: o Senado. Corrupto, insurreto e nepótico. O desprezo de Calígula pela instituição era tão grande que ele decidiu se vingar obrigando mulheres e filhas dos senadores a se prostituírem. Algumas horas com as madames rendiam cinco moedas de ouro em benefício do tesouro imperial. A forma de ressarcimento era cruel e bizarra, mas aplaudida pelo povo. O historiador Suetônio conta que Calígula (Botinhas) era o apelido de Caio Júlio César Augusto Germano, porque, desde criança, andava vestido de guerreiro e com sandálias militares. Ele próprio elegeu o seu cavalo Incitatus como senador para, em seguida, elevá-lo à autoridade de cônsul, uma espécie de primeiro-ministro. Os senadores aceitaram todas as humilhações porque, o que conta mesmo, são as mamatas. O que interessa é o dinheiro no bolso. A categoria política romana resistiu até conseguir armar um complô contra o imperador e executá-lo, em 41 depois de Cristo. Foi assim que começou a derrocada da maior potência ocidental.
A série de escândalos que veio à tona no Brasil nos últimos meses não representa apenas a revelação da degradação ética que envolve senadores e que avilta a ação política dos partidos. O mais grave é que, por trás dos fatos e por causa deles, o próprio papel do parlamento é pisoteado, com grave reflexo para as instituições nacionais e para o funcionamento do sistema representativo. Nem precisamos de um Calígula para humilhar o Congresso. Ele mesmo se prostitui com os escândalos que se sucedem a cada dia. A revista inglesa The Economist acaba de chamar o Senado brasileiro de “casa dos horrores”.
A mais recente de uma rotina de novas irregularidades é a denúncia de desvio de verba da Petrobras para a Fundação José Sarney, por meio de empresas fantasmas e outras da família. Tudo em nome de um projeto social que nunca saiu do papel. Sarney insiste em não largar o osso. Como sempre alega em sua defesa que nada tem a ver com as contas da entidade. Ninguém nunca justificou como é que a Fundação Sarney tem sede no Convento das Mercês, relíquia da arquitetura religiosa do século 17, em São Luiz. Simplesmente o prédio histórico foi ocupado pelo ex-presidente da República para perpetuar o lado favorável da sua memória.
No Brasil se aposta no tempo e na saturação como estratégia para relegar os fatos ao esquecimento. Jarbas Barbalho, Renan Calheiros e tantos outros continuam por aí impunes. E mandam... O deputado Edemar Moreira acaba de ser absolvido pelos seus colegas. O parlamentar, mais conhecido por ser dono de um castelo avaliado em R$ 25 milhões, é acusado pelo uso de recursos da chamada verba de representação do seu gabinete na contratação de serviços de segurança de suas empresas. Todos esses episódios, de ontem e de agora, somente reforçam o perfil daqueles que fizeram da política uma plataforma para a privatização dos espaços públicos em benefício próprio, da família e de um círculo de amigos. O brasileiro parece que perdeu a capacidade de se indignar. Vemos na televisão manifestações de rua na China e no Irã, países onde o povo enfrenta regimes despóticos e a polícia violenta para fazer valer suas reivindicações por mudanças. Aqui, o conformismo nos dá a entender que a sociedade nem liga mais para os maus políticos. O presidente Lula os protege. O Senado não pune. A Câmara se dispõe até a desmoralizar seu Conselho de Ética que deu parecer favorável à condenação do “homem do castelo”.
Temos também a nossa “Neverland” às avessas. O Congresso é uma “Terra do Nunca”. Lá, “nunca” ninguém tem culpa de nada. Para Sarney, os 600 atos secretos não existem, embora tenham sido usados para nomear parentes que moram em Campo Grande, em Madri e Alhures. A única função desses funcionários é receber o contra-cheque. Melhor que a Maria Candelária, personagem da marchinha de Carnaval dos anos 50, cantada pelo Bleacaute que falava da rotina funcional: “À uma vai ao dentista/ às duas vai ao café/ às três vai à modista/ às quatro assina o ponto e dá no pé/ Que grande vigarista que ela é.” O Barão de Itararé é que definia bem a moral conformista do povo: “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC