Muito se fala sobre as drogas na sociedade e seus efeitos colaterais. Os pais tentam manter os filhos longe delas, dando conselhos aos mesmos e pedindo para que tomem cuidado com as amizades. Mas o maior problema é quando o perigo não está nas verdadeiras amizades e sim dentro da própria família.
Cresci com um primo mais velho viciado em drogas. Vamos chamá-lo de “dito cujo”. Ele vivia sempre exibindo seu vício, onde quer que ele estivesse sempre havia droga. Parecia querer convencer sua família e seus amigos que o que era proibido e escondido era melhor. Dava mais prazer. Infelizmente, na época, eu não tinha a minha opinião formada e me deixei envolver por esse falso amor. Sei que as escolhas na vida são feitas por nós mesmos, mas fica muito mais fácil decidir quando estamos cercados de boas pessoas com boas intenções, o que, infelizmente, não foi o meu caso.
Caí nas drogas aos 23 anos. Na época, brigado com meu pai. Revoltado e fora de casa, me tornei uma presa fácil. O “dito cujo” não me ensinou a ter fé em Deus, não me ensinou a acreditar na vida e a vencer os obstáculos. Ele só me ensinou as drogas, infelizmente.
Naquele tempo, eu não sabia com quem comprar, pois este não era o meu círculo de amizades, mas isso não foi problema, pois o “dito cujo” não deixava nem eu pagar, me dava de graça, pelo menos até ele ter certeza que estava viciado, depois disso a coisa mudou... É... Como é a vida...
Fiquei nesse buraco por mais de dez anos, mas, ao contrário do “dito cujo”, eu sempre tive caráter e sempre usei sozinho. Jamais ofereci a qualquer pessoa, pois pensava: “Se caí no buraco, nem por isso vou puxar alguém para dentro. Quem sabe Deus não tem piedade de mim e me salva...” Nesse meio tempo, morreram dois amigos bem próximos a ele de overdose. Demorou mais de dez anos a minha libertação, mas ela veio depois de muita oração. Passei a freqüentar um grupo de ajuda que, infelizmente, não posso citar o nome aqui, pois uma das regras é não divulgá-lo perante a imprensa e também comecei a freqüentar a Comunidade Renascer, em Agudos (do meu amigo Fernando). Contei também com a ajuda da minha esposa (só eu sei o que ela passou) e dos meus amigos Valmir “Pitbull” e Marcos. Foram as únicas pessoas que me ajudaram e não me condenaram.
Não posso reclamar da demora da minha libertação, pois tem gente que faz uso há mais de dez anos e não admite que é viciado. Diz que pára quando quiser, o que é pura hipocrisia. É o mesmo que tapar o sol com a peneira. Ou ainda têm pessoas que querem ser ajudadas, mas têm receio de pedir ajuda ou ainda ser taxada de drogada, que é o que acontece na maioria das vezes. Quando chegamos aos grupos de ajuda, a primeira coisa que aprendemos a admitir é que somos impotentes perante as drogas. Hoje, tenho parentes que caíram na droga (homens e mulheres) graças ao “dito cujo” e se encontram nessa situação.
Agradeço a Deus todos os dias por ter me libertado. Foi muito difícil, admito. Às vezes, parecia impossível, mas não há vitórias sem luta e o meu Deus é o Deus do impossível. Ele é meu verdadeiro Pai. Atualmente, não tenho mais contato com o “dito cujo” e, sinceramente, nem desejo. Sou ignorado na rua por ele e por sua família. Se sua esposa tiver chance, ela ainda jogaria seu carro importado em cima do meu, esteja eu sozinho, minha esposa sozinha ou com nossos filhos. Devem pensar que eu sou um bicho. Esse tipo de “amizade” realmente não me faz falta nenhuma, pois sei que dali não sai nada de bom mesmo.
Passei por vários problemas na vida em decorrência do uso dessa porcaria e ainda hoje sofro as conseqüências de alguns erros do passado. Mas a vida continua, não adianta ficar chorando o leite derramado. Hoje, peço a graça de Deus ao “dito cujo” e sua esposa, pois eles têm filhos para criar e ambos são adictos. Que tipo de exemplo darão aos seus filhos?
Tenho rancor, sim, admito. Não sou nem nunca fui hipócrita, mas somente desejando o melhor para eles, pude realmente me libertar do meu passado. Nunca acreditei que dinheiro, carros importados, lancha e avião sejam tudo na vida. A droga muito menos. Não estamos no mundo para ser egoístas, apenas à procura do nosso bel prazer. Há valores na vida muito maiores como o amor, a sinceridade, a humildade, a coragem, a honra e o caráter. Valores que ele e sua família, infelizmente, desconhecem.
Espero que as pessoas que caíram nas drogas leiam tudo o que escrevi com atenção e tentem se libertar o quanto antes. No final, descobri que ele não era meu primo e sim primo das drogas. O que me salvou foi a minha fé em Deus, os grupos de ajuda, meus amigos e minha esposa. E se alguém algum dia lhe oferecer drogas saiba que essa pessoa nunca, nunca mesmo, foi sua amiga. A droga é uma verdadeira maldição.
Ivan Tobias