Existe ainda uma mentalidade que persiste na cidade, tanto no poder público quanto nos investidores privados, que impede que investimentos voltados para o período noturno sejam realizados nessas regiões. A avaliação é do professor e antropólogo da Universidade do Sagrado Coração (USC) e membro da Instituto Brasileiro Histórico e Antropologia (IBHAN), Cláudio Eduardo Badaró.
Para o professor, a condição social de quem vive nos bairros também influencia bastante. Em geral, quem reside nos bairros mais populosos da cidade não tem um poder aquisitivo tão alto. Os que possuem essa condição mais elevada, têm condições de ter uma vida noturna mais agitada. “Essas pessoas, em geral, preferem se deslocar para a área central onde estão concentradas as casas noturnas, cinemas e shopping”, acredita Badaró.
Algumas regiões da cidade concentram essa camada da população, como por exemplo, a zona sul. Esses locais são os preferidos pelos empresários de entretenimento para fazer seus investimentos em Bauru.
Para o professor, outro fator que também dificulta que uma gama de opções de divertimento seja oferecida nos bairros da cidade é a rotina de vida dos moradores. O antropólogo lembra que a maior das pessoas que vivem nesses locais levanta muito cedo para se dirigir ao trabalho.
O exemplo é dado pelo morador do Jardim Redentor Ulisses Gomes Prado. “É muito difícil a gente sair com a família durante a semana. O trabalho no outro dia e a certeza de que o que se pode fazer hoje estará à disposição também no final de semana, nos faz esperar o sábado chegar”, diz Prado.
Badaró acredita que, se investimentos fossem feitos para ampliar as opções de entretenimento existentes nos bairros, a mentalidade das pessoas também mudaria. Ele acredita que o próprio município poderia investir mais nos bairros e levar para esses locais atrações como apresentações teatrais e eventos que estimulassem as pessoas a sair de suas casas não apenas nos finais de semana.
O professor também cobra mais investimentos privados para o período noturno nos bairros, como o que já acontece no horário comercial. Há muito tempo os bairros passaram a ser atrativos para o ramo de serviços na cidade, mas ainda existe uma espécie de barreira que impede que os investimentos no entretenimento migrem para esses locais.
Na verdade, alguns bairros já tiveram investimentos vindos da iniciativa privada nesse sentido, mas que não resistiram por muito tempo. Badaró crê que o sucesso desse tipo de investimento está na mudança também do modo de pensar das pessoas que vivem no local. “Essa mudança poderá levar algum tempo, mas tenho certeza que cidade e o próprio bairro só têm o que ganhar com isso”, diz o antropólogo.
Badaró lembra que mesmo havendo as questões do poder aquisitivo e da condição social, a maior parte das pessoas que freqüentam a noite de Bauru, seja na área central ou na zona sul, vem desses bairros. “Se fosse feita uma pesquisa de campo com os freqüentadores desses locais, como as casas noturnas, shopping e lanchonetes, ficaria explícito que a maior parte das pessoas que sustentam esse mercado é oriunda dos mais diversos bairros da cidade”, aposta.
Dessa forma, ele acredita que o problema pode não estar na localização geográfica do bairro na cidade, mas sim na mentalidade das pessoas que vivem nesses locais. “Apesar de tímida, a oferta de serviços como pizzarias e lanchonetes existe por toda a cidade, mas as pessoas ainda preferem se deslocar para a área central em busca desse tipo de serviço”, afirma.
Badaró descarta a questão da segurança nos bairros como sendo um agravante que impede o desenvolvimento da vida noturna. “A maior parte dos bairros enfrenta seus problemas, mas nem de longe podem ser considerados como um fator que impeça que o entretenimento noturno se instale nesses locais”, encerra.
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Movimento até a madrugada
A realidade dos bairros visitados pela reportagem do JC nos Bairros é parecida. Núcleo Mary Dota, Vila Falcão e Jardim Redentor têm vida noturna semelhante. Nesses bairros, o movimento fora do final de semana se restringe até no máximo meia-noite. A exceção foi encontrada no Jardim Bela Vista. Vanda Maria Pereira Godoi, proprietária de uma lanchonete em frente à Praça dos Expedicionários, garante que tem movimento até a madrugada. “De sexta-feira e sábado o movimento de clientes chega até as 4 horas da manhã”, garante Godoi.
Os freqüentadores da lanchonete se instalam nas mesas colocadas na calçada em frente ao estabelecimento e também do outro lado da rua, na praça. Ali, as pessoas aproveitam o clima tranqüilo do local para passar as horas e se distrair. Simone Pereira de Andrade conta que aproveita para levar seu filho, José Vítor Pereira de Andrade, para brincar pela praça. “Eu adoro sair de casa para vir aqui. No Bela Vista tem várias opções para quem deseja se divertir em qualquer dia da semana”, garante.
De acordo com a moradora, não existe problema de insegurança, no bairro todo mundo se conhece e por isso existe respeito. Edi Galesso Neto e Lara Garcia também contam que dão prioridade ao bairro na hora de sair para comer algo. “Só nos finais de semana que a gente se vê obrigado a sair do bairro para ir ao shopping, cinema ou numa casa noturna”, conta Neto.
Godoi acredita que melhorias no bairro, como iluminação adequada, iria atrair ainda mais freqüentadores para o local. “Aqui, todo dia vem gente que reside no Jardim Pagani, na Duque de Caxias ou regiões distantes”, afirma.